Domingo, 27/05/2012 10:42
 
 

Atualidade

Viagem pela música e a cultura da África

Confira a alegria de viver dos africanos: astros da música de Cabo Verde e do Senegal estarão este ano em destaque nos...mais

© Thomas Dorn

Atualidade

Economia

Presidente do banco do Vaticano é afastado do cargo  

Cultura e Estilo

Exposição mostra a moda europeia do Iluminismo à Primeira Guerra Mundial  

Cultura e Estilo

Dresden comemora 500 anos da pintura "Madona Sistina"  

Perfil

Vizinhança ecológica

Adriana López, da Colômbia, desenvolve em Bonn, na Universidade das Nações Unidas, modelos para melhorar ecologicamente...mais

Eventos

Vida em quadrinhos

Uma viagem de descobrimento ao mundo dos super-heróis. O museu Europäische Kulturen...mais

Link

Alemanja

PORTAL ALEMÃO PARA A LUSOFONIAmais

Bookmarks
| |

HISTÓRIA VIVA

Mulheres fortes

O atual cinema alemão é feminino. Em quatro produções simultâneas, Barbara Sukowa, Iris Berben, Johanna Wokalek e Veronica Ferres imergem na história alemã, dando vida a histórias na tela, emocionando, fascinando, comovendo e fazendo esquecer que tudo é apenas cinema

Rainer Stumpf

Nunca conseguimos encerrar a história. Quanto mais velha eu fico, mais perguntas tenho”, disse recentemente a atriz Iris Berben numa entrevista. A história e o cinema alemão são uma combinação extremamente fértil. Quando cineastas, roteiristas e atores alemães levam temas históricos à tela, o resultado é enorme. Isto já quase se tornou lei. “A vida dos outros” (Oscar em 2007), “A queda” (indicação para o Oscar em 2007), “O complexo Baader-Meinhof” (indicação para o Oscar em 2009), “O tambor de lata” (Oscar em 1980), “O barco – Inferno no mar” (indicação para o Oscar em 1983). E a lista de sucessos ainda não está completa. Agora, Iris Berben faz sua pergunta sobre a história ao cinema alemão.

“Es kommt der Tag” (O dia virá) é o título da produção, na qual uma das mais badaladas atrizes alemãs assume um papel num filme sobre o terror da RAF (Fração do Exército Vermelho) na década de 70 do último século. Como vive uma ex-terrorista que entregou sua criança à adoção, para entrar em atividades subversivas? O que acontece quando esta criança está de repente diante da porta para exigir respostas de sua mãe que está vivendo sob falsa identidade? “Quando li esse livro, não tive dúvidas. Era o papel que eu queria fazer. E um grande motivo era também que essa história é narrada de uma maneira bem diferenciada”, explica Iris Berben a sua decisão de participar no elenco do filme da cineasta Susanne Schneider.

Berben teve de esperar muito tempo por ofertas como essa, se bem que quase não se possa imaginar o mundo do cinema alemão sem ela. Até há pouco, ela devia sua popularidade ao talento de comediante. Mas tanto a crítica como o público ficaram impressionados com sua atuação no seriado de tevê em três capítulos “O último Krupp” (2009) – onde ela fez o papel de Bertha Krupp, a chefe do grupo de empresas durante 35 anos – e também na adaptação do romance “Buddenbrooks” (2008), de Thomas Mann. Todavia, o auge da carreira de 40 anos de Iris Berben é sua confrontação – no papel da fictiva militante da RAF Judith Müller – com sua filha Alice (Katharina Schüttler) no filme “Es kommt der Tag”. Uma interpretação impressionante, intensa e sufocante. Uma maneira especial de passar a limpo o passado, a qual mostra como o terrorismo ainda continua atuando na sociedade.

Ervas e música eram as únicas associações que Barbara Sukowa teve espontaneamente quando ouviu o nome de Hildegard von Bingen, abadessa da Idade Média. Mas elas foram suficientes para que a atriz respondesse “sim” à pergunta da diretora Margarethe von Trotta, se ela queria assumir esse papel. Assim, o caminho estava livre para a quinta produção conjunta das duas grandes personalidades do cinema alemão. Sukowa começou imediatamente a pesquisar para o seu novo papel, ficando cada vez mais admirada. A personagem da mística, terapeuta natural e poetisa, que corajosamente fazia sermões moralistas contra o clero e os imperadores, começou a fasciná-la cada vez mais. “Ela poderia muito bem ter acabado na fogueira, acusada de bruxaria com ervas”, disse Sukowa, que também afirmou não ter medo desse papel. Ela conhece muito bem mulheres rebeldes da história alemã. Sua carreira começou interpretando “Mieze” no filme “Berlin Alexanderplatz”, de Fassbinder. Logo seguiram o papel de Rosa Luxemburg e um papel secundário lembrando a terrorista da RAF Gudrun Ensslin, no filme premiado “Os anos de chumbo”. Ao contrário, Hildegard von Bingen é muito mais calma. Mas observando-se bem, nota-se aquele sorriso esperto que Sukowa dá à sua Hildegard, proporcionando-lhe uma superioridade original em toda dramaticidade e toda luta contra as autoridades estatais e clericais. Uma mulher forte representada por uma atriz cheia de energia.

“A papisa Joana”, o mais recente filme com a participação de Johanna Wokalek, também trata da luta contra autoridades clericais e estruturas rígidas de poder e da corajosa luta do indivíduo contra a opressão da maioria. Não tem muita importância que a história seja baseada numa lenda da Idade Média. O livro de Donna Cross, que leva o mesmo título, foi um sucesso internacional. Lá a autora descreve a história de uma jovem na Idade Média que, vestida de homem, consegue chegar até o trono do Santo Padre. Baseando-se nesse livro, o diretor alemão Sönke Wortmann transforma a história numa obra épica monumental com imagens impetuosas e muito intensas e uma atriz excepcional no papel principal. Wokalek consegue se equilibrar corajosamente na corda bamba entre monge piedoso e mulher apaixonada. É uma representação andrógina fascinante de vulnerabilidade e resolução. “A câmara vê tudo o que a gente pensa e sente”, diz a graciosa atriz de 34 anos. Seu mundo de ideias e emoções é profundo. Prova disto é que o Burgtheater de Viena a integrou no seu elenco, sem titubear.

Raramente, a crítica foi tão unânime como no caso do filme “Unter Bauern” (Entre camponeses). Este filme deixa o público “tenso”, “emocionado”, “comovido”, pois nada o que ele mostra é ficção. É o destino verdadeiro da família de judeus Spiegel, que escapa de ser presa pelos nazistas em 1943, encontrando refúgio entre camponeses e conseguindo, assim, sobreviver ao holocausto. Após o fim da guerra, a esposa e mãe de família Marga Spiegel, hoje com 97 anos de idade, publicou num livro as suas experiências, que foram agora representadas na tela por Veronica Ferres. Como quase nenhuma outra atriz alemã, Ferres é a mulher para grandes dramas históricos. Ela atuou tanto em “Os Mann”, seriado de três capítulos para a tevê sobre a família de Thomas Mann, portador do Prêmio Nobel de Literatura, como em “Frau vom Checkpoint Charlie” (A mulher do Checkpoint Charlie) e em “Wunder von Berlin” (O milagre de Berlim), estes dois sobre a divisão da Alemanha. Já no seu primeiro filme “Schtonk”, sátira indicada para o Oscar que trata dos diários falsificados de Hitler, Veronica Ferres demonstrara sua preferência por temas histórico-sociais. Ferres ficou tão emocionada com a história de Marga Spiegel que ela própria foi procurar um produtor. Sua persistência acabou tendo sucesso. A sua boa atuação no papel da judia perseguida foi confirmada pela própria Marga Spiegel, após a estréia do filme em Tel Aviv. Respondendo à pergunta de como Verônica Ferres teria representado sua vida, ela disse: “De maneira tão convincente que até fiquei surpreendida. Para mim, isto não é apenas um filme. É minha vida”. O filme mais emocional deste outono alemão terá sua sequência fora dos cinemas. Spiegel e Ferres, que passaram horas e dias juntas, pesquisando para o filme, tornaram-se grandes amigas. Isto comprova que não é o cinema que apresenta as melhores histórias, mas sim a própria vida.

19.10.2009
Bookmarks
| |