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Nas pegadas de Martinho Lutero

No ano de 2017 será comemorado pela 500ª vez o “big bang” da Reforma, a lendária exposição das teses de Lutero em Wittenberg. Ocasião para se comemorar e se compenetrar.

Andreas Montag, Jonas Ratermann (fotos)

Wittenberg é uma cidade bonita, um tanto idílica, de tamanho médio. Ela está situada perto da linha divisória entre a Saxônia-Anhalt e Brandemburgo e tem quase 50 000 habitantes. Isto poderia ser razão para chamá-la de uma cidade pequena de porte maior, o que, todavia, deixaria seus habitantes magoados. De qualquer maneira, ela não é apenas uma cidade que se encontra às margens de um dos maiores rios da Alemanha, o Elba, mas também uma cidade que tem uma grande história que se pode apalpar com as mãos, pois aqui não faltam testemunhos da Renascença.

O reformador Martinho Lutero (1483–1546) está intrinsecamente ligado a Wittenberg, razão pela qual esta cidade tem que ser corretamente denominada de Lutherstadt Wittenberg. Mas só poucas pessoas fazem isto, pois o nome parece complicado demais. Aliás, parece que alguns pensam: Por que tanto barulho por causa de um monge infiel chamado Lutero?

Mas parece que isso está mudando. Lutero, que sempre viveu no coração dos protestantes, está se aproximando pouco a pouco de outros cidadãos dessa cidade e das suas cercanias. Isto também porque muitos turistas, também do estrangeiro e de outros continentes, vem para cá seguindo as pegadas de Martinho Lutero. Talvez também porque os monumentos em memória de Lutero, espalhados pela Saxônia-Anhalt, estão sob a proteção da UNESCO como patrimônio cultural da humanidade. O turismo luterano é mesmo um fator econômico e é bem visto não apenas em Wittenberg, mas também em Eisleben (a pequena irmã de Wittenberg, na região de Mansfeld, entre Halle e Harz, onde Lutero nasceu e faleceu) e também em Eisenach, na Turíngia.

Neste Estado, no Castelo de Wartburg, ele viveu escondido de 1521 a 1522, perseguido e proscrito pela igreja romana, sob o falso nome de “Junker Jörg”, trabalhando na tradução da bíblia para o alemão. Isto foi, sem dúvida, um feito cultural com grandes consequências. O livro dos livros é para muitas pessoas tão atual como naquela época. E agora também de novo no leste da Alemanha, onde o domínio comunista de 40 anos deveria livrar os cidadãos da crença – e com êxito, o que as igrejas cristãs das duas grandes confissões lamentam unanimemente.

É claro que o aniversário da Reforma vem bem a tempo. Para essa finalidade, a Igreja Evangélica na Alemanha criou o posto de um prelado, empossando nesse cargo o teólogo Stephan Dorgerloh, que deverá coordenar e gerenciar o evento no local. Sua sede de serviço é na prefeitura de Wittenberg – maior prestígio é quase impossível.

Década de Lutero? Assim se chama o espaço de tempo até o ano de 2017, quando será comemorado pela 500ª vez o “big bang” da Reforma, a lendária exposição das teses na Igreja do Castelo de Wittenberg. Nas suas 95 teses, Lutero condenou as indulgências da Igreja Romana e, apoiado na Bíblia, criticou duramente as circunstâncias que dominavam na época. Lutero afixou suas teses exatamente no dia 31 de outubro, que se tornou o Dia da Reforma, feriado legal nos Estados centrais da Alemanha, Saxônia, Saxônia-Anhalt e Turíngia, que são preponderantemente protestantes.

Gostam-se muito e em toda parte de feriados, também em tempos antes seculares. Se os padeiros de Wittenberg oferecem um apetitoso “pãozinho da Reforma“, ninguém o recusa. Mas o que significa Reforma? O que ela significa hoje? Isto visa os conteúdos, aos quais a década da Reforma deve estar vinculada, e não só aos negócios turísticos que trazem lucros oportunos aos cidadãos de Wittenberg, Eisleben ou Eisenach.

No começo, parecia que as duas coisas não estavam dando bem. A crise econômica global estava freando a vontade de viajar, principalmente a de muitos cristãos dos Estados Unidos. Foi só pouco a pouco, pelo menos na percepção popular, que se iniciou o debate sobre a atual importância da Reforma, sendo que se podem compreender bem e por toda parte os resultados do trabalho de Lutero e de seu amigo e companheiro, o teólogo Philipp Melanchthon, pois ele contribuiu primeiramente para o desenvolvimento da língua e do pensamento alemães e depois para as transformações do Iluminismo até à Modernidade do século XX. Dois testemunhos disso são o Reino dos Jardins em Dessau-Wörlitz e a Escola Bauhaus, ambos a poucos quilômetros de Wittenberg.

Mas também demorou (e continua demorando) para compreender o protesto de Lutero contra as limitações e aflições medievais dentro de um contexto com emancipação e liberdade, e também como algo muito contemporâneo e atual. Como algo que não só vai além de ser um evento local, mas também como algo que merece a maior atenção possível e cuja festividade tem que ser organizada e apoiada com meios estaduais. Isto porque não se trata aqui de um a festa municipal, disse Stephan Dorgerloh em 2010, em tom de crítica.

Mas neste meio tempo, as coisas começaram a se movimentar: um caminho de peregrinação segue Lutero através da Alemanha central, anos temáticos e diversos eventos vão estruturando a década, até chegar à grande festa. E o governo estadual em Magdeburg falou no começo de 2011 da probabilidade de disponibilizar uma soma na casa dos milhões, entre outras coisas para o saneamento do Castelo de Wittenberg.

Desta vez foi também um artista que contribuiu essencialmente para impulsionar a discussão pública. “Instigado” por Dorgerloh, Ottmar Hörl começou, no verão de 2010, a ocupar a praça Marktplatz de Wittenberg com 800 anãos-Lutero, como representantes da superdimensional estátua do pai da Reforma, que normalmente dominava a praça. Ela estava ausente, pois tinha que ser saneada.

A indignação do círculo de teólogos conservadores e de outros círculos foi enorme. Mas tão emocional foi também a aprovação. De fato, Hörl não tinha derrubado a estátua do seu pedestal e nem trivializado, mas feito figuras de plástico fieis à original, que formavam um exército, tornando o reformador humano. Assim, ele tornou ciente aquelas questões e suas responsabilidades, as quais muitas pessoas, também de Wittenberg, não queriam assumir. Por exemplo, a questão do antissemitismo de Lutero.Mas calar não é conforme a imagem da Reforma.

Graças à ação de Hörl, o patrimônio histórico Lutero retornou ao meio das pessoas, de igual para igual. As crianças ficaram admiradas, os jovens o viram com olhos de turistas e alguns crentes acharam a ação irreverente. Mas, de repente, surgiu um debate, uma verdadeira discussão. A “descida” temporária de Lutero do pedestal não prejudicou nem os pensamentos nem a recordação da Reforma – e nem a venda de diversas lembrancinhas. A Saxônia-Anhalt continuará sendo o Estado de Lutero. E sua capital se chama Wittenberg.////

10.02.2011
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