Domingo, 27/05/2012 09:32
 
 

Atualidade

Viagem pela música e a cultura da África

Confira a alegria de viver dos africanos: astros da música de Cabo Verde e do Senegal estarão este ano em destaque nos...mais

© Thomas Dorn

Atualidade

Economia

Presidente do banco do Vaticano é afastado do cargo  

Cultura e Estilo

Exposição mostra a moda europeia do Iluminismo à Primeira Guerra Mundial  

Cultura e Estilo

Dresden comemora 500 anos da pintura "Madona Sistina"  

Perfil

Vizinhança ecológica

Adriana López, da Colômbia, desenvolve em Bonn, na Universidade das Nações Unidas, modelos para melhorar ecologicamente...mais

Eventos

Vida em quadrinhos

Uma viagem de descobrimento ao mundo dos super-heróis. O museu Europäische Kulturen...mais

Link

Alemanja

PORTAL ALEMÃO PARA A LUSOFONIAmais

Bookmarks
| |

Alemanha no conselho de segurança da ONU

A partir de 1º de janeiro de 2011, a Alemanha é membro do mais importante grêmio da ONU por dois anos.

Von David Bosold

Por David Bosold

Frequentemente são os detalhes que nos mostram mudanças até então ocultas. Nada ilustra melhor a nova autoconsciência da Alemanha que o tratamento lúdico com suas cores nacionais. No verão setentrional de 2010, durante a Copa do Mundo de futebol na África do Sul, os centros das cidades alemãs foram invadidos pelas bandeiras em preto- vermelho-dourado. Poucos meses mais tarde, em 12 de outubro de 2010, chamou atenção de inúmeros representantes da imprensa a gravata listrada em preto-vermelho-dourado do embaixador Peter Wittig, representante permanente da República Federal da Alemanha nas Nações Unidas. Já no primeiro escrutínio para um mandato não-permanente no Conselho de Segurança da ONU, dois terços dos 192 países membros deram seu voto à Alemanha na Assembleia Geral. Após 1995/96 e 2003/04, a Alemanha torna-se membro do mais importante grêmio das Nações Unidas pela terceira vez desde a Reunificação em 1990.

A decisão da candidatura, anunciada em 2006 ainda durante o governo anterior, foi considerada anteriormente como um risco, já que se haveria de disputar um dos dois mandatos vacantes no Conselho de Segurança com o Canadá e com Portugal. Em face dos fortes concorrentes, foi uma surpresa que a Alemanha lograsse ser escolhida já na primeira votação. Portugal pôde impor-se finalmente no terceiro escrutínio. Dos 15 membros do Conselho de Segurança fazem parte, com mandatos permanentes, os EUA, a Grã-Bretanha, a França, a Rússia e a China – os países que possuem direito de veto. Os restantes dez membros não-permanentes fazem parte do Conselho de Segurança por dois anos, sendo que, a cada ano, cinco deles são eleitos. Em 2011, fazem parte do Conselho de Segurança a Bósnia-Herzegóvina, Brasil, Gabão, Líbano e Nigéria, ao lado da Alemanha, Portugal e também Índia, África do Sul e Colômbia, cujos mandatos estendem-se até 2012. Com isto, todos os países BRIC e nove países do G20 serão membros do mais importante grêmio da ONU.

Segundo a Carta da ONU, o Conselho de Segurança é a única instância que tem o direito de decidir sobre questões de guerra e paz. O grêmio tem a missão de “preservar a paz mundial” e de “fomentar a segurança internacional”. Desde o fim do conflito Leste-Oeste, são tidos como ameaças à paz mundial não apenas os tradicionais con­flitos entre países, mas também conflitos internos de países em crise. Um lugar à mesa dos 15 possibilita aos membros do Conselho de Segurança debater problemas globais da política de segurança e tomar medidas eventuais, que vão de sanções a intervenções mili­tares. Por isto, é correta a afirmação do ministro das Relações Exteriores, Guido Westerwelle, de que a eleição da Alemanha é antecipação de confiança e, ao mesmo tempo, prova de confiança. É uma prova do papel construtivo que a Alemanha desempenhou nos anos pas­sados, por exemplo, nas conversações sobre o programa atômico iraniano com os cinco membros permanentes do Con­selho de Segurança (E3+3). Mas, ao mesmo tempo, também uma antecipação, já que agora a Alemanha terá de assumir mais responsabilidades.

Se a Alemanha quiser fazer jus à ambição de assumir maior responsabilidade global terá, ao lado do seu engajamento financeiro – a Alemanha é o terceiro maior contribuinte da ONU –, também que contribuir no futuro com ideias e com pessoal alemão: policiais, capacetes-azuis, técnicos da ajuda ao desenvolvimento, diplomatas. O ministro do Exterior Guido Westerwelle definiu claramente os limites do futuro engajamento alemão, quando fez um balanço das missões de state building das décadas passadas: são limitadas as possi­bilidades de estabilizar Estados fracassados ou em declínio. Já não se busca mais um fervor missionário, mas sim a con­vicção do que é plausível. Intervir moderando como “potência pacífica”, referindo-se com credibilidade às experiências próprias da História, este é um trunfo que a Alemanha pode aproveitar no Conselho de Segurança.

Inúmeros conflitos continuam sem so­lução. A Somália não possui até hoje um governo ativo que tenha condição de garantir a ordem pública e de controlar o território do país. A situação no Iêmen, como no Afeganistão e no Paquistão continua instável. Também o Iraque ainda não está pacificado, o governo constituído recentemente é frágil. No Sudão, houve progressos no papel. O acordo de paz entre o governo central e o SPLA no sul do país foi assinado em 2005, outro entre o SLM e Cartum foi assinado no ano de 2006. Os acordos são controlados pelas missões UNMIS e UNAMID. Estes exemplos de países frágeis demonstram que o Conselho de Segurança terá de manter, nos próximos anos, a condição de reagir em curto prazo às trans­formações na política de segurança. E, em face da situação orçamentária e da redução do contingente de tropas nos países ocidentais, haverá que se desen­volver novas concepções de como serão executadas as missões estabilizadoras sob o égide da ONU e também de como poderão ser reforçadas ainda além da participação de pessoal.

Outros instrumentos para conter os con­flitos mencionados e para a proteção dos direitos humanos básicos poderiam ser o fortalecimento da Corte Penal Inter­nacional (CPI) em Haia e novas negociações sobre a Responsabilidade de Pro­teção (“Responsibility to Protect” – R2P). Ambos os projetos são apoiados pela Alemanha, seus parceiros europeus e outros países aliados. Através do trabalho da Corte Penal Internacional e o princípio da R2P são evitadas as violações dos direitos humanos, já que os indivíduos podem ser punidos por seus crimes (CPI) e os regimes que desrespeitam os direitos humanos têm de contar com sanções, em casos extremos através de uma intervenção humanitária (R2P). A aprovação da Responsabilidade de Proteção pela 60ª Assembleia Geral em 2005 e a referência à “R2P” na Resolução 1674 deixaram claro que é preciso dar maior importância à proteção dos direitos humanos nos conflitos armados.

Desde a mudança do governo alemão para Berlim em 1999, a política exterior alemã pode ressaltar com credibilidade, mesmo fora do trabalho no Conselho de Segurança, seu engajamento pelas Nações Unidas, através do campus da ONU em Bonn. A chamada “cidade federal” abriga entretanto 18 instituições das Nações Unidas, entre elas o Secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (CQNUMC), a qual tenta lograr, no âmbito de conferências dos países signatários – 2009 em Copenhague (COP 15), 2010 em Cancún (COP 16), um acordo para a redução duradoura e obrigatória das emissões globais de gases do efeito estufa. O governo federal alemão sempre demonstrou seu compromisso com este objetivo no âmbito da UE e sob a forma de ambiciosas metas voluntárias de redução.

Não é apenas na aprovação de um acordo global do clima que não se logrou êxito até agora. Também a reforma das Nações Unidas e do Conselho de Segurança necessita ainda de novas iniciativas diplo­máticas. Desde a criação de um grupo de trabalho para a reforma do Conselho de Segurança (open ended working group) em 1995, foram debatidas numerosas pro­postas de reforma. Até agora, faltou a necessária aprovação de dois terços dos países na Assembleia Geral, bem como dos membros permanentes do Conselho de Segurança. Não se concretizou a esperança dos países do G4 (Alemanha, Japão, Índia, Brasil), de um êxito no debate da reforma no ano de 2005. Também com o ministro do Exterior Westerwelle, a Alemanha permanece fortemente engajada neste debate. A meta política de longo prazo continua sendo a criação de um mandato permanente para a União Europeia. O processo da reforma ganha um dinamismo adicional pelo fato de estarem representados no Conselho de Segurança em 2011 diversos candidatos a um mandato permanente: o Brasil e a Índia, além da Nigéria e da África do Sul. As per­spectivas para um novo impulso ao debate da reforma são assim melhores que nunca.////

David Bosold é diretor de programação do International Forum on Strategic Thinking da Sociedade Alemã de Política Exterior (DGAP) em Berlim.

17.11.2010
Bookmarks
| |