Uma biblioteca considerável de livros para o vigésimo aniversário da Queda do Muro, em 9 de novembro de 1989, e a unificação definitiva dos dois Estados alemães em 3 de outubro de ano seguinte já está empilhada, há muito, sobre a escrivaninha. Memórias dos políticos envolvidos do Leste e do Oeste, de Helmut Kohl, Hans-Dietrich Genscher, Wolfgang Schäuble, passando por Tadeusz Mazowiecki e Lech Walesa até George Bush (pai), James Baker ou Mikhail Gorbachev, testemunhos oculares de jornalistas, excelentes estudos de fonte na obras de historiadores americanos, britânicos e franceses sobre o fim da guerra fria, a Queda do Muro e a derrocada do império soviético, que se processaram paralelamente à veloz reunificação alemã.
É preciso registrar isto de antemão, pois a unidade alemã não foi nenhum acontecimento isolado e não pode ser compreendida sem a participação dos vizinhos europeus, principalmente da Polônia e da França, bem como das superpotências. Mesmo que o processo interalemão tenha absorvido muitas forças e tenha turvado, muitas vezes, a visão do contexto global. Em resumo: no fim das contas e apesar de tudo o que é preciso ressalvar, a unidade alemã é um experimento bem-sucedido, como raramente ocorreu na história, mas ele não teria dado certo sem os vizinhos europeus. E ele também só se tornou possível, porque os políticos responsáveis da época, em Bonn, eram unânimes em reconhecer que a meta só poderia ser uma “Alemanha europeia” e não, por exemplo, uma “Europa alemã”. Não é dourar a pílula, quando se reconhece que os alemães orientais e ocidentais não trilharam nenhum caminho nacionalista. Não, a sua grandeza é a república e isto não deve soar arrogante, nem subir à cabeça.
Nas universidades de Aachen até Dresden, Rostock ou Freiburg começa hoje seus estudos a primeira geração que nasceu após a Queda do Muro e a unidade. Isto significa que estamos chegando de maneira automática à historicidade da República Democrática Alemã (RDA), que findou aos 41 anos, através da filiação à Alemanha Federal. Algumas vezes tentou-se dar uma nova etiqueta ao país: “república berlinense” foi a formulação preferida, que deveria expressar o surgimento de algo inteiramente novo. Mas a sociedade permaneceu incrédula, mesmo quanto a tais caracterizações. Com razão, pois pareciam desmedidas. De fato, a modalidade de filiação da RDA, ou dos cinco Estados alemães orientais, não constituía realmente um completo recomeço, a Lei Fundamental continuou em vigor, não houve uma nova Constituição. Já para a geração de escolares e estudantes do ano de 2010, é difícil ensinar por que tal modalidade de filiação – sem um plebiscito, sem eleições, uma adesão através de um simples ato judicial – provocou tanto alvoroço na época.
Exageradamente, pode-se afirmar que as diferenças culturais diluíram-se de forma irreconhecível. Não foi um começo fácil. O chamado brain drain, a evasão de jovens do leste da Alemanha, que buscavam chances de formação e exercício profissionais, a perda de um total de mais de dois milhões de pessoas no intercâmbio leste-oeste, o desaparecimento de cerca de dois terços da indústria da RDA, o crescimento explosivo do desemprego, a privatização das empresas estatais (ou seu fechamento definitivo), com a ajuda da “Treuhand” – tudo isto descreve uma dura, às vezes amarga, realidade. A grande maioria da população no Leste, que deseja uma rápida unificação e também a troca do marco com cotação ao par, perdeu sua existência segura da noite para o dia, seu emprego, teve que aprender outra profissão e adaptar-se a uma situação de vida inteiramente nova. Este foi o motivo pelo qual surgiu, nos primeiros dez anos, algo como a chamada Ostalgie (“nostalgia do Leste”), uma certa tristeza de também ter perdido algo e não apenas conquistado a liberdade (e uma aposentadoria segura). Para o Oeste, com suas estruturas consolidadas, seu bem-estar, sua possibilidade de planejar a própria vida, foi difícil compreender isto. Neste sentido, o “muro dentro das cabeças”, do qual se falou durante muitos anos, era provavelmente mais alto no Oeste que no Leste, onde a “filiação” começava a mostrar paulatinamente também os seus lados positivos materiais – ao lado do inestimável, a liberdade conquistada.
O Leste não se equiparou inteiramente, os salários e rendimentos são marcadamente mais baixos ainda hoje, seu Produto Interno Bruto per capita está cerca de 30% abaixo do Oeste. Ainda hoje não se pode excluir a possibilidade de que partes do leste da Alemanha deixem de se tornar lugares de “paisagens florescentes”, dos quais falou certa vez o chanceler Helmut Kohl. Contudo, só o “Fundo da Unidade Alemã” pôs à disposição, nos primeiros quatro anos e meio, 115 bilhões de marcos alemães, e desde 1993, o Pacto de Solidariedade, que deveria destinar-se a equiparar as condições de vida e foi prorrogado até hoje, fez uma transferência de 1,6 trilhão de euros do Oeste para o Leste, nos 20 anos, para pensões, serviço público, construção de vias, saneamento urbano ou incentivo de investimentos. Tudo isto transformou os “novos Estados federados” e a nova capital Berlim, de maneira notável.
E, apesar disto, tem-se uma imagem falsa com tais números. A Alemanha Federal tornou-se mais variada, certamente também mais defasada socialmente, contraditória, entre o Norte e o Sul, entre metrópole e província, entre Berlim e Munique revelaram-se diferenças, da mesma maneira como entre o Leste e o Oeste. Foi inteiramente encerrada a controvérsia, de que o próprio processo de unificação poderia ter corrido de outra forma. As circunstâncias, pode-se dizer, não permitiram uma pausa de reflexão, como desejava o então presidente Richard von Weizsäcker, mas também muitos intelectuais alemães orientais, a maioria pressionava por uma unificação ultra-rápida e o chanceler Helmut Kohl postou-se à frente desse movimento.
Contudo, houve uma convergência entre o Leste e o Oeste em muitos setores, as universidades de Halle e Jena até Frankfurt do Oder ou Greifswald – que são atraentes entretanto não apenas para os estudantes das regiões vizinhas – oferecem cursos menores, melhores condições de trabalho, técnicas mais modernas. A Saxônia, Brandemburgo ou partes de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e da Turíngia superam, com seu crescimento dinâmico, até mesmo Estados progressista do Oeste, como a Baviera ou a Renânia do Norte-Vestfália. Como uma “zona de crise” já não se pode mais descrever o Leste. E os Estados e municípios do Oeste podem entrar em crise da mesma maneira. Crise do clima? Crise financeira? Crise do orçamento público? As relações aplainam as diferenças de antigamente.
Referir-se a isto não significa ignorar o estranho, os disparates. O pesquisador de conflitos Wilhelm Heitmeyer, de Bielefeld, afirma que as rupturas sociais, motivadas por discriminação e não-reconhecimento, aparecem tanto no Oeste como no Leste, sendo aqui ainda mais marcantes. Dois terços dos habitantes do Leste afirmam que são tratados como cidadãos de segunda classe e até mesmo três quartos sentem-se em desvantagem real em relação às pessoas no Ocidente. Ao mesmo tempo, porém, e isto faz parte deste contexto, a maioria absoluta no Leste é de opinião que a sua pacífica “revolução de outubro” de 1989 foi um êxito e a mesma maioria absoluta no Leste e no Oeste manifesta-se de maneira positiva em relação à democracia reinante.
Os alemães orientais estão à frente dos alemães ocidentais quanto à “experiência do fracasso”, ponderou já há alguns anos o ensaísta Friedrich Dieckmann. Realmente, pode mostrar-se como uma vantagem, o fato de que a sociedade do Leste, marcada pela escassez e a crise, reaja com mais calma e flexibilidade do que aqueles que cresceram na sociedade de consumo ocidental. E entre nós – não são as escolas de pintura em torno de Neo Rauch e dos “Junge Wilde”, em Dresden e Leipzig, Gerhard Richter, os escritores, de Thomas Brussig até Uwe Tellkamp e Ingo Schulze, além dos cineastas (“Sonnenallee” e “Good bye Lenin!”), um indício de resistência criativa e tenacidade?
A minha suposição é de que se esboça uma convergência cultural que, de modo inteiramente novo, nos une e nos separa – mas não no conhecido esquema leste-oeste. Escritores e intelectuais do Leste, como Daniela Dahn, já criticaram há muito tempo que o Ocidente tenha posado de “vencedor”, mas na verdade não pode passar sem um corretivo no Leste (“sem Leste, não há Oeste”). Quando um autor como Ingo Schulze, nascido em 1962, escreve que “a discussão que não foi feita em 1990, pode e deve ser realizada agora”, não está manifestando ele, com isto, o que interliga muitos no Leste e no Oeste? Ele se volta contra a total orientação econômica da vida – que não foi nenhuma invenção da república ocidental, como se vê, mas sim um problema “sistêmico”. Nas palavras de Schulze: “O crescimento e a maximização dos lucros deixaram de ter serventia como vara de vedor que nos indica o futuro. Os relatórios do clima nos dão um prazo de cinco a dez anos para puxar os freios de emergência. Enquanto tentamos fomentar o consumo, um bilhão de pessoas não tem o suficiente para comer, nem água potável... A internacionalização da economia tem de ceder lugar a uma internacionalização dos cidadãos e cidadãs, ou seja, uma internacionalização da política. Falar e debater sobre os 20 anos da revolução pacífica significa também refletir sobre nosso mundo de hoje”.
Eu não creio que se trate de uma opinião isolada, ainda que Ingo Schulze divida certamente as opiniões com o seu julgamento. Também um outro alvoroço se desfaz. O debate sobre o tratamento adequado com o passado não tem, nem de longe, o mesmo caráter controverso dos anos iniciais. Ele trata, mais exatamente, da intensidade com que deve ser processado o esclarecimento do regime antigo de Berlim Oriental, quem deve sofrer um processo penal entre os chefões do SED ou os opressores do Stasi, como as vítimas devem ser indenizadas e a quem deve ser concedido um “direito a engano” e garantida uma chance de reintegração. Uma comissão de inquérito do Bundestag para analisar a “história e consequências da ditadura do SED na Alemanha” tentou canalizar a insatisfação acumulada em 40 anos e também a “lei dos documentos do Stasi” e a criação da repartição do Encarregado federal pela documentação do serviço de segurança do Estado da extinta RDA contribuíram muito para um debate comedido.
Apesar de todas as críticas compreensíveis, logrou-se finalmente encontrar um caminho moderado entre uma análise honesta do passado e o desejo de não provocar a divisão e a paralisação da própria sociedade. “Os criminosos estão entre nós” é o título de um libelo. O autor Hubertus Knabe, que teve ele próprio o encargo de analisar documentos do Stasi, registra que muitas antigas redes de favorecimento teriam permanecido impunes ou mantido sua influência sigilosa e muitos informantes foram acobertados ou encontraram acolhida no partido “Linkspartei”. Sucessor do Partido Socialista Unitário (SED) da RDA, na época ainda com o nome PDS, este partido logrou acesso ao Bundestag. É a mais recente força política na Alemanha e especialmente vigoroso nos cinco novos Estados federados. Mas também nos demais Estados, ele entrou nos Parlamentos estaduais e foi a razão pela qual se estabeleceu hoje na Alemanha um sistema de cinco partidos. Mas também a pergunta sobre o passado de seus integrantes no Stasi já não é mais feita de forma agressiva, ela toma cada vez mais uma perspectiva histórica.
O que foi a RDA? Exatamente o prudente historiador Hans-Ulrich Wehler, de Bielefeld, descreveu no final da sua “História da Sociedade Alemã”, de vários volumes, este Estado incapaz de sobreviver por si mesmo como um mero Estado de sátrapas, com uma população curvada e acomodada na sua totalidade, que não necessitaria uma análise mais detalhada. Nada destes 41 anos de vida vivida, afirmou-se aos envolvidos, merece consideração. Ele ofendeu muita gente no Leste. Mas também esta controvérsia está sendo superada, me parece. De forma que, 20 anos depois da unificação, até mesmo os corajosos oposicionistas dos tempos da RDA podem falar sem raiva, que simplesmente foram levados de roldão pela avalanche da unificação, nos anos 1989/90. Eram democratas, mas estavam incomodando. Assim, eles foram a pique. Os cidadãos, segundo Ingo Schulze, não foram tratados como cidadãos, mas sim dispensados da sua responsabilidade através de promessas eleitorais (marco alemão imediatamente, regiões florescentes). A unificação, diz Jens Reich, que foi candidato a Presidente federal em 1994, carrega desde então um “déficit democrático”. Mas ele fala sem melancolia, a História passou simplesmente por cima de tudo.
Que foi feito do país comum? Para a Alemanha Federal não existe nenhuma etiqueta convincente, marcante, que possa descrever seu âmago. A unificação modificou o país de forma veemente, mais do que ele próprio quer admitir. Sobre o prosseguimento do “caminho europeu” continua havendo um consenso até agora. Também o Leste da Europa, partindo da Polônia, foi integrado. Digamos assim: uma comunidade de interesses surgiu daí, um pouco rota e ligada a negócios, mas estável e não mais assolada pela questão pungente, se as “duas alemãs das meias-nações” (Karl-Heinz Bohrer), o Leste e o Oeste, teriam se afastado demais ou se voltariam a crescer conjuntamente. Isto é tão óbvio agora que, dentro em breve, só por ocasião de jubileus é que seremos relembrados de que nem sempre foi assim. ///














