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Na linha de frente

A arte relojoeira alemã está em alta, sobretudo a de Glashütte. No povoado do leste alemão, encontram-se o fino artesanato e a alta tecnologia

Oliver Sefrin

QUEM DESEJA VIVENCIAR A FASCINAÇÃO DO TEMPO, precisa viajar para um lugar remoto. Na Erzgebirge, ao sul de Dresden e próxima à fronteira tcheca, fica Glashütte. A sinuosa estrada estadual 178 nos leva por 15 quilômetros ao longo do estreito vale do riacho Müglitz até chegarmos ao destino. “Aqui vive o tempo” saúda uma placa na entrada da cidade: Seja bem-vindo em Glashütte, circunscrição estadual de Sächsische Schweiz-Osterzgebirge. Duas ruas maiores, prédios de fachadas decoradas, uma estação de trem, um supermercado, uma agência da caixa econômica e, ao redor, bosques cobrindo os morros, chamados de Ochsenkopf e Schützenhöhe. Mas na pequena cidade de 7000 habitantes, incluindo todos seus distritos, a província e o mundo amplo estão próximos. Glashütte é conhecida em todo o mundo por um artesanato muito particular: a produção de relógios de pulso com mecânica das mais requintadas. A contemplatividade como vantagem local.

Stuttgart e sua periferia são marcadas pelo grande número de empresas da indústria automobilística, que movimentam a economia regional. Em Frankfurt do Meno, os grandes bancos somam suas competências no setor financeiro e são empregadores significativos. Glashütte, por sua vez, escreve, com seus relógios excepcionais, uma história de sucesso no leste alemão. Em mais de 165 anos, a indústria relojoeira vem acumulando uma admirável competência. Esta está condensada em poucos quilômetros quadrados num centro econômico, que gera vantagens competitivas e potencial de crescimento para as empresas e, assim, assegura importantes empregos na região. Em Glashütte, uma dúzia de fabricantes de relógios emprega aproximadamente 1000 trabalhadores. As empresas praticam, entre si, uma política de boa vizinhança, mas não há cooperação direta. Cada marca de relógio tem sua própria filosofia, encontrou seu nicho de mercado e, desse modo, em 20 anos de Alemanha reunificada, vem contribuindo para o renascimento da indústria relojoeira. Glashütte desponta hoje novamente como sinônimo da mais alta precisão, qualidade de primeira classe e design excepcional no mundo dos relojoeiros. A grande verticalização da produção – do menor dos parafusos à máquina complexa – é uma característica das marcas locais que sempre trazem junto a indicação de origem. Somente os relógios com pelo menos 50% de seu mecanismo fabricado diretamente na região podem levar o nome da cidade.

Glashütte, um microcosmo para relógios e o tempo: um mostrador no brasão da cidade, o Café Uhrwerk na rua principal, um passeio pelos 35 locais mais importantes na história e na atualidade dos relojoeiros e o representativo Museu Alemão do Relógio. Desde 2008 uma exposição mostra cerca de 400 peças da relojoaria saxã. Iniciador do projeto foi Nicolas G. Hayek, ex-presidente da multinacional relojoeira suíça Swatch, detentora também da marca Glashütte Original. Compreende-se porque justo um cidadão suíço apoiou a construção deste museu em Glashütte, em reconhecimento à indústria relojoeira na chamada Suíça Saxã e a seu fundador Ferdinand Adolph Lange. Em sua homenagem, a cidade possui um monumento na praça Marktplatz. Rodeado por flores e bancos, ele apresenta o busto do homem que colocou para funcionar os primeiros relógios de Glashütte. No fim de 1845, o mestre relojoeiro de Dresden iniciou a tradição de relógios finos em Glashütte com sua manufatura Lange & Cie.

Muitos de seus ideais ainda estão vivos neste século 21 na rua Altenbergerstrasse e na praça Ferdinand Adolph Lange Platz. Nelas, estão estabelecidas as três empresas responsáveis pela fama da cidade: a Lange Uhren GmbH e sua marca A. Lange & Söhne, a Glashütte Original e a Nomos Glashütte. São as três únicas manufaturas, expressão usada hoje, no setor relojoeiro alemão, para referir-se somente aos fabricantes que projetam e produzem suas próprias máquinas, o complicado coração de um relógio. E para isto precisa-se sobretudo de tempo. Do primeiro esboço de um relógio até ele ser comercializado podem transcorrer anos. A A. Lange & Söhne produz atualmente 28 máquinas de relógio diferentes. Até que um relógio mecânico esteja completo, de 200 a 600 pequenas – às vezes minúsculas – peças são montadas em etapas: muito trabalho manual, mas também com apoio da alta tecnologia. “Esta é a base para o trabalho de precisão”, diz Christian Engelbrecht, da A. Lange & Söhne, e nos conduz por uma porta à produção das peças. Há cheiro de óleo e podem-se ver desenhos de projetos. Grandes máquinas fresam molduras delicadas e furam buracos diminutos em bases metálicas redondas, que servem de fundamento para qualquer relógio: a platina. Ao lado, na sala de testes, cada moldura e furo será mais tarde verificada com tecnologias de medição. Precisão vem em primeiro lugar. Toleram-se apenas desvios da fração de um fio de cabelo.

Quem, na manufatura, adentra-se ainda mais no mundo da platina três quartos, de parafusos azulados, âncoras e volantes, chega ao trabalho de precisão. Aqui cada uma das peças do maquinário é aplainada, polida, guarnecida e pré-montada. Um som de polimento similar ao de um consultório de dentista soa na seção técnica de decoração da A. Lange & Söhne, na qual uma funcionária, com uma máquina polidora, trabalha uma ponte. Na gravura, é preciso ter sensibilidade: com um buril, um gravador adorna com filigranas florais, uma escrita pessoal, a torneira do balanço, uma parte da armação da máquina do relógio, mais fino que uma unha. Ela transforma cada relógio da marca num produto singular.

O momento em que o relógio ganha vida acontece com a montagem da máquina. É a hora do relojoeiro e da arte de seu ofício. Na Nomos Glashütte, o trabalho no coração do relógio é realizado com vista panorâmica. A seção de cronômetros fica no bairro Erbenhang, sobre os telhados do povoado. Aproximadamente 40 relojoeiros, quase a metade dos funcionários, montam aqui as máquinas dos relógios em pequenas linhas de montagem e verificam a exatidão do funcionamento. Através de portas de madeira clara com as indicações “Montagem de Corda e Máquina”, “Ajuste Fino” e “Complicação”, vai-se aos mestres do tempo. Seu reino lembra laboratório e oficina ao mesmo tempo. Com jalecos brancos, com desenhos de relógios, eles estão sentados a mesas de relojoeiros, com suas superfícies próximas aos queixos e apoiando os braços, de modo que eles possam usar suas ferramentas com precisão. Com um alicate de espiral e uma lupa no olho, a relojoeira coloca cuidadosamente a roda de escape sobre a máquina a ser montada e gira cautelosamente o pequeno parafuso até firmá-lo. Quem trabalha aqui precisa ser muito paciente e zeloso e ter olho apurado e mão calma. Com estas virtudes, a Nomos e a A. Lange & Söhne trilham – cada uma de sua forma – o rumo do sucesso e contribuem para um pequeno milagre econômico no leste alemão.

Após a Queda do Muro e a reunificação em 1989 e 1990, ninguém teria sonhado com esta evolução. A indústria relojoeira ficara no chão depois da dissolução das relojoarias VEB Glashütte. Em seu renascimento, ajudou o espírito empreendedor de homens como Walter Lange. O bisneto de Ferdinand A. Lange fundou em 1990 a Lange Uhren GmbH, na época com 470 funcionários, e registrou a marca A. Lange & Söhne. Sua grande ambição: a Lange deveria voltar a produzir os melhores relógios do mundo. Da marca, que hoje pertence ao grupo suíço Richemont, especializado em bens de luxo, são fabricados todos os anos somente alguns poucos milhares. “Somos a única marca de relógios alemã que atua no segmento top de altíssima qualidade, e que está presente em mais de 50 países”, diz o presidente executivo Wilhelm Schmid, que deseja tornar a marca ainda mais conhecida no exterior, onde já tem lojas próprias em Xangai, Tóquio e Seul. A busca da perfeição e a exclusividade da A. Lange & Söhne têm seu preço. Por refinadas maravilhas de ouro puro ou platina, que vão ao limite possível da mecânica, abastados amantes de relógios pagam às vezes centenas de milhares de euros.

Na antiga estação ferroviária também se percebe a ambição de se produzir relógios ímpares. Mesmo assim, ali no reformado prédio, a manufatura Nomos Glashütte segue outro caminho para posicionar seus relógios no mercado. No início dos anos 1990, Roland Schwertner, administrador e fotógrafo de Düsseldorf, abriu a empresa, que até hoje permanece independente, com muito idealismo, e hoje atua nos bastidores como estrategista. A ideia do pioneiro de associar a tradicional arte relojoeira ao design moderno tornou os relógios Nomos um sucesso de vendas. Mostradores simples, ponteiros elegantes e lunetas estreitas: modelos como os da série Tangente, inspirados na Bauhaus, espelham a construção clara e atemporal da marca e pertencem aos clássicos entre os relógios de pulso. Com preços de 1000 euros aproximadamente, não chegam a custar uma fortuna. Uwe Ahrendt, nascido em Glashütte e, desde 2010, gerente geral da Nomos, vê a variedade de empresas em Glashütte – cada qual perseguindo seus princípios – como ponto forte da região. Quando se trata do futuro de sua empresa, Ahrendt fala de fidelidade a princípios. “Qualidade antes de quantidade. Não queremos crescer a qualquer preço”, diz ele durante um café no jardim do prédio dos cronômetros. Seu objetivo: expandir para a Europa seu sucesso na Alemanha, onde a Nomos vende cerca de 80% de seus relógios.

Na Suíça, a Nomos já possui desde o outono de 2010 uma vitrine proeminente, uma loja localizada bem no centro de Zurique. Excelente endereço para levar o nome Glashütte pelo mundo afora. Assim, o tempo não vai parar tão cedo na Nomos e na A. Lange & Söhne.////

10.05.2011
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