Domingo, 27/05/2012 04:07
 
 

Atualidade

Viagem pela música e a cultura da África

Confira a alegria de viver dos africanos: astros da música de Cabo Verde e do Senegal estarão este ano em destaque nos...mais

© Thomas Dorn

Atualidade

Economia

Presidente do banco do Vaticano é afastado do cargo  

Cultura e Estilo

Exposição mostra a moda europeia do Iluminismo à Primeira Guerra Mundial  

Cultura e Estilo

Dresden comemora 500 anos da pintura "Madona Sistina"  

Perfil

Vizinhança ecológica

Adriana López, da Colômbia, desenvolve em Bonn, na Universidade das Nações Unidas, modelos para melhorar ecologicamente...mais

Eventos

Vida em quadrinhos

Uma viagem de descobrimento ao mundo dos super-heróis. O museu Europäische Kulturen...mais

Link

Alemanja

PORTAL ALEMÃO PARA A LUSOFONIAmais

Bookmarks
| |

Bauhaus festeja 90 anos

Laboratório criativo do modernismo

Célula geradora da boa forma, revolucionária escola de arte e área de projeção de novas ideias. Uma instituição brilhante comemora aniversário

Thomas Edelmann

Não se pode explicar a Bauhaus”, escreveu o artista Jean Leppien. “A Bauhaus foi sobretudo um posicionamento intelectual, foi uma comunidade de 150 individualistas, que se uniram para uma cruzada conjunta contra valores e preconceitos existentes e reconhecidos”. Wolfgang Sattler, professor de design de produtos na atual universidade da Bauhaus em Weimar afirma: “Cada um cria a sua própria Bauhaus, nós a inventamos como o próprio foguete para o futuro. Mas este foguete quase não pode ser controlado”.

Em 2009, a Bauhaus comemora 90 anos. Exposições em ­Weimar, Dessau, Berlim e Nova York relembram a instituição extremamente influente, sempre polêmica, que contribuiu de maneira decisiva para a divulgação internacional da ­configuração modernista na arquitetura, arte e design. 90 anos são um curioso período de tempo. Menos redondo que “50 Anos da Bauhaus”, uma exposição que levou a Bauhaus e o seu mundo de idéias às gerações do pós-guerra. Como ­consequência, foram lançadas no comércio pela primeira vez as reedições de móveis da Bauhaus, que até hoje marcam a nossa imagem da instituição. Por outro lado, a ideia da escola superior de arte ainda não é centenária, ou seja, não está ­superada e esquecida.

Há 90 anos, o arquiteto Walter Gropius (1883-1969) foi nomeado diretor da antiga Escola Superior Saxônia do Grão-Duque para Artes Plásticas, em Weimar. Ele a uniu com a Escola de Artes Aplicadas de Weimar, que na verdade já estava fechada desde 1915, rebatizando-a de Staatliches Bauhaus. A fundação ocorreu no dia 1º de abril de 1919. No mesmo mês foram divulgados o manifesto da Bauhaus, de autoria de Gropius, e o programa da escola superior. “A meta final de toda atividade configuradora é a construção!”, afirma a primeira frase do manifesto. Um texto patético, que se junta às correntes expressionistas: “Arquitetos, escultores, pintores, todos nós temos de retornar aos ofícios manuais!”. O modelo para a nova escola superior deveriam ser as oficinas medievais de construção sacras, nas quais os artesãos e os ­artistas trabalhavam conjuntamente para erigir as grandes catedrais góticas. O modelo era do passado, mas a visão de Gropius era moderna: “Arquitetos, pintores e escultores têm novamente de conhecer e entender a configuração multimodular da construção em seu todo e nas suas partes, então suas obras se encherão por si próprias do espírito arquitetônico, que perderam como arte de salão”, escreveu. Revolucionária era a ligação, surgida em Weimar, entre as belas artes e as artes aplicadas, entre as ­oficinas e os cursos de mestre. Revolucionária era também o abandono do velho conceito das escolas de arte, no qual os estudantes tinham de imitar durante anos a maneira de trabalhar do professor e no qual a atual criação artística se orientava em modelos históricos. Com o final da Primeira Guerra Mundial, foi destruída não apenas a velha ordem política. Também as estratégias e conceitos estéticos do século 19 tornaram-se, de um golpe, antiquados.

Quase na mesma época da criação da Bauhaus, constituía-se em Weimar a Assembleia Nacional. A fim de fugir às confusões revolucionárias de Berlim, os deputados da assembleia constituinte reuniram-se em Weimar. O conflito entre o sistema dos conselhos e a democracia foi encerrado em 1919 com a decisão em prol do Estado constitucional democrático. Comparado com as escaramuças políticas, as batalhas de rua e lutas de barricada, os debates estéticos que levaram à fundação da Bauhaus pareciam de início inofensivamente apolíticos. Mas os conceitos de Gropius baseavam-se em estratégias, que já tinham sido discutidas anteriormente no “Conselho Operário da Arte”, uma associação de arquitetos, artistas e publicistas, e formuladas como programa político: “A arte e o povo têm de formar uma unidade”, afirma um panfleto do Conselho Operário em março de 1919. “A arte não deve mais ser o deleite de poucos, mas sim a felicidade e a vida das massas. A meta é a unificação das artes sob as asas de uma grande arquitetura”. Inicialmente, Gropius convidou três artistas para serem mestres da Bauhaus: o pintor Lyonel Feininger, o escultor Gerhard Marcks, bem como o pintor e pedagogo de arte Johannes Itten. Posteriormente, juntaram-se a eles os pintores Georg Muche, Paul Klee, Oskar Schlemmer e Wassily Kandinsky. A Bauhaus aloja-se no prédio da Escola Superior de Artes, uma construção art nouveau, projetada por Henry van de Velde.

No começo, o ensino da Bauhaus não era em classe regida por mestre, mas sim organizado em oficinas. Os “mestres da forma”, artistas e arquitetos, assessoram os “mestres de ofício”, que ­tinham formação de artesãos. Pouco a pouco, surgiram oficinas para metal, tecelagem, cerâmica, móveis, tipografia, afrescos e cenografia. Os anos iniciais de Weimar são tidos como a fase romântica, praticamente esotérica. Para isto, contribuiu especialmente Johannes Itten que, juntamente com a mestra da Bauhaus Gertrud Grunow, inventou o curso propedêutico, uma inovação central que influenciaria definitivamente, até os dias de hoje, os programas de ensino das escolas de arte e de design em todo o mundo. Nele, é ensinado aos principiantes os fundamentos estéticos e de configuração comuns, antes que se especializem em determinadas oficinas. Contudo, Itten aproveitava seu curso propedêutico também para conquistar seus estudantes para uma obscura doutrina pseudorreligiosa, a ­Mazdaznan. Muitos estudantes e professores rechaçaram tais conteúdos irracionais. Um primeiro exemplo de conflito dentro da escola. Outros se seguiriam, mas também a ampliação do perfil da escola superior: Itten foi sucedido por László Moholy-Nagy, que incluiu projetos tipográficos e fotografia no currículo. Em 1923, a Bauhaus mostrou pela primeira vez numa exposição os resultados dos cursos e oficinas. A casa experimental “Haus am Horn”, uma construção plana, sem adornos, voltada para o interior, feita segundo os planos de Muche, foi recebida pela maioria dos cidadãos de Weimar como um exasperante corpo estranho. O pintor Oskar Schlemmer dirigiu o teatro da Bauhaus e abordou no seu “Triadisches Ballett” a relação entre o movimento das pessoas e o espaço. Num texto denominado “Hausbau und Bauhaus!”, ele conclama ao abandono do ideal do artesão. “O ofício manual de antigamente é feito hoje ou será feito pela indústria: objetos de consumo para carências físicas, típicos, robustos, orientados para a prática, surgidos a partir das necessidades externas”.

Resistências e recomeço

Anunciava-se uma mudança de orientação. Gropius propagava agora “a unidade de arte, técnica e ciência”. No início da década de 1960, ele recordou esta época. Após a leitura de um diário de 1923 até 1928, ele ressaltou “que 90% dos esforços descomunais, que todos os participantes investiram nessa empresa, tinham de ser voltados para a defesa contra as agressões a níveis local e nacional e apenas 10% restavam para o trabalho criativo propriamente dito”. Para os envolvidos, isto não era motivo de dissabor: “Não duvidamos em nenhum ­momento da nossa capacidade de vencer as resistências”. Apesar disto, a Bauhaus em Weimar tinha cada vez mais inimigos. A escola superior estatal receava todos os anos que seu orçamento não seria aprovado. O enfraquecimento das forças democráticas reformistas no Parlamento da Turíngia, em prol de forças nacionalistas reacionárias, obrigou à mudança de localização. Em 1925, a Bauhaus de Weimar teve de ser fechada. A cidade de Dessau possibilitou a transferência e a construção de nova sede.

A Bauhaus constrói

Conforme projetos de Walter Gropius, surgiram nos subúrbios de Dessau um prédio com estrutura de aço e fachada cortinada, as “Casas dos Mestres”, um conjunto de moradias e outras construções isoladas. Quando o arquiteto e crítico Julius ­Posener visitou o prédio da Bauhaus em 1992, ele descreveu suas impressões: “Tudo, construção e espaço, está sempre presente, presente e compreensível, logo nos sentimos bem tranquilos, participantes, inspirados nesta casa, que foi então um sinal, um verdadeiro toque de trombeta”. A palavra Bauhaus suscitava inúmeras sobrecargas e projeções, a partir de agora a escola passa a denominar-se “Escola Superior de Configuração” e tem pela primeira vez um local próprio, um prédio programático, que atrai jovens de todo o mundo, para ser parte de um projeto de renovação. Finalmente, em 1927, Gropius nomeou um mestre para o novo departamento de arquitetura. É o arquiteto suíço Hannes Meyer, que defende posições socialistas de esquerda. Em 1928, ele sucede a Gropius como diretor da Bauhaus. O lema, que Meyer propaga ainda antes da crise econômica mundial, é “produtos populares em vez de produtos de luxo!”. A era de Hannes Meyer significa profissionalização e politização para a Bauhaus. Em 1930, a cidade de Dessau demite Meyer em virtude da sua orientação comunista. Seu sucessor é Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969), que fez furor com seus prédios no conjunto de Weissenhof em Stuttgart em 1927, e com o Pavilhão Alemão na Exposição Mundial de Barcelona em 1929. O arquiteto dá estrutura escolar ao estudo, as oficinas e seus projetos para a indústria tornam-se menos importantes, cresce a importância da formação em arquitetura. Em 1932, o partido nazista NSDAP impõe em Dessau o fechamento da Bauhaus. O partido comunista KPD vota contra, os social-democratas do SPD abstêm-se. Mies van der Rohe transfere a Bauhaus para Berlim. Dificuldades econômicas, mas principalmente as represálias do Estado nazista, levam em 1933 ao seu fechamento e dissolução.

Repercussão mundial

Mas professores como Moholy-Nagy, Gropius e Mies van der Rohe, que emigram para os EUA, e também alunos e diplomados levam as ideias e conceitos de ensino a todo o mundo. Por algum tempo, existe em Chicago a New Bauhaus. No após-guerra, o prefeito de Dessau, Fritz Hesse, tenta reativar a antiga escola. Mas o modernismo estético não combina com o conceito dos governantes da RDA. Na parte ocidental, uma nova burguesia adota a estética formal da Bauhaus, da maneira como ressurge nas reedições da década de 1970. Na verdade, segundo resultado de pesquisas, a Bauhaus foi muito mais colorida, contraditória e diversificada no seu mundo formal do que imaginamos hoje em dia. Em 1979, foi aberto em Berlim o Arquivo da Bauhaus, com a maior e mais importante coleção de objetos e documentos da sua história.

“Há um anseio de se orientar na Bauhaus”, afirma Omar Akbar, diretor da Fundação Bauhaus até março de 2009. Até hoje, ­numerosas escolas superiores, designers e artistas tomam como referência o laboratório de ideias do modernismo. Entre eles, profissionais tão diversos como os arquitetos Meinhard von Gerkan e Daniel Libeskind. O nome Bauhaus, que foi criado por Gropius, presta-se de forma ideal para ser preenchido sempre com novas ideias e projeções. “My Bauhaus is better than yours” foi o nome dado por estudantes de Wolfgang Sattler, na universidade da Bauhaus em Weimar, a um dos seus projetos. Enquanto a partir da década de 1950, as escolas de design, de arquitetura e de arte buscaram cada vez maior delimitação, o que inspira agora é exatamente o interesse por disciplinas semelhantes. Quase ­como há 90 anos.

30.01.2009
Bookmarks
| |