Com camisa e jeans pretos, o maestro rege a Rundfunk Sinfonieorchester de Berlim, que toca as músicas do filme. Cada músculo de seu corpo está tenso. É fevereiro. Mais de 390 mil pessoas vêem, ao vivo, pela televisão e no Festival Internacional de Cinema (Berlinale), como a batuta do maestro atua como um sutil prolongamento de seu braço. É uma sensação mundial. Pela primeira vez desde mais de 80 anos pode-se assistir à obra inteira do clássico do cinema mudo “Metrópolis”, de Fritz Lang. Quase completa e com sua música original. Os desfiladeiros entre os arranha-céus de Metrópolis, o espião do dominador, o robô: todos ganham vida nova com a música de Gottfried Huppertz – agora tudo combina. No Portão de Brandemburgo, em Berlim, centenas de cinéfilos reúnem-se sob temperaturas negativas, com garrafas térmicas na mão. A exibição no tradicional Friedrichstadtpalast, onde também está presente o astro hollywoodiano Leonardo DiCaprio, é projetada num telão da praça, naquela noite gelada.
É o fim de uma longa viagem, que começou em 1927 com uma estreia em Berlim, passou por Buenos Aires e terminou em fevereiro na Berlinale 2010. Na primeira estreia, no UFA-Palast, o filme fora reprovado pela crítica: o enredo seria muito complicado. E ninguém aguentaria mais de 150 minutos. Mesmo assim, o esboço do que seria a cidade do futuro tornou-se um clássico. Talvez tenha sido a incompletude do filme que estimulava a fantasia. Possivelmente ficaria assim para sempre, não fossem dois profissionais do cinema na Argentina.
Quando Paula Félix-Didier assumiu, em janeiro de 2008, a direção do Museo del Cine em Buenos Aires, a tarefa não soava nada glamorosa. Há quatro anos, o museu estava instalado em algum lugar entre armazéns e fábricas no bairro Barracas e “temporariamente” fechado. Velhos projetores, cenários, figurinos e fotografias esperam pela oportunidade de algum dia voltar a ser apresentados ao público. Ninguém parecia se interessar pelo acervo do museu cinematográfico. Entretanto, Félix-Didier logo percebeu que ali havia verdadeiros tesouros: vários filmes mudos argentinos, que se imaginavam perdidos. E as cenas de “Metrópolis” que pesquisadores e restauradores procuravam, há décadas, em todo o mundo.
Não foi por acaso que a longa versão do primeiro filme, declarado patrimônio cultural da humanidade pela Unesco, estava em Buenos Aires. Nos anos 1920, existiam aproximadamente 300 cinemas na cidade. O distribuidor de filmes Adolfo Z. Wilson tinha visto “Metrópolis” na versão original de Fritz Lang, em Berlim. Enquanto o filme foi encurtado nos Estados Unidos, Wilson decidiu mostrar a película inteira aos entusiastas do cinema em Buenos Aires. Um colecionador guardou uma cópia da versão da estreia e, mais tarde, vendeu seus filmes ao Fundo Nacional de Artes, que repassou as latas ao Museo del Cine. E foi assim que, enquanto se procurava “Metrópolis” no mundo todo, a ambicionada versão do filme repousava na Argentina. Organizadamente arquivada. Até que o historiador argentino de cinema Fernando Peña recebeu a dica decisiva: “Um operador de cinema me contou que o filme estava em mau estado”, diz Peña. “Ele reclamava que tinha de pressionar a película com o dedo, para que ela não pulasse do projetor, durante mais de duas horas.”
Mais de duas horas? Para Peña, estava claro: não poderia ser a versão encurtada. Por várias vezes ele tentou examinar o filme no Museo del Cine, mas esbarrava na burocracia. Até que Félix-Didier convidou-o ao arquivo. Embora em imagens pequenas, os dois profissionais do cinema notaram imediatamente que eram as cenas que o mundo imaginava não mais existirem. Félix-Didier voou para Berlim e mostrou o achado a especialistas. A Fundação Murnau, em Wiesbaden, que possui os direitos sobre “Metrópolis”, decidiu sem perda de tempo: “Vamos restaurar!” Objetivo: uma nova estreia do velho filme, com grande orquestra, na Berlinale 2010. E uma corrida contra o tempo começou.
Os restauradores analisaram imagem por imagem. Eles queriam alcançar, tanto quanto possível, a versão da estreia de 1927. Era um quebra-cabeças, cuja forma final ninguém mais conhecia. A única orientação vinha do roteiro e da partitura da trilha sonora. O segundo problema era a qualidade da imagem. Os fotogramas vindos da Argentina estavam extremamente arranhados. Sulcos feitos por projetores, poeira e manchas de óleo faziam parte da película. O original de 35 mm do filme foi destruído nos anos 1970, “Metrópolis” copiado para uma película de 16 mm, e todas as falhas reproduzidas na cópia. “Era como se alguém tivesse lavado o filme com um pano antes de se fazer a cópia“, diz Félix-Didier, parecendo sofrer junto com o filme.
Mais de meio milhão de euros custou a restauração. Apesar disso, uma parte dos arranhões permaneceu nas cenas reencontradas. Um monumento ao Museo del Cine? Félix-Didier tira os óculos, sorri e pensa na resposta. Quem entra no museu, percebe que, desde o valioso achado, não mudou muita coisa por lá. Não há calefação, nem um novo equipamento de ar condicionado no arquivo. Mesmo assim, a diretora do museu está feliz: “Não há nada mais bonito para um arquivista do que devolver à história do cinema uma peça que faltava”.













