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CULTURA

Emoções, rupturas, últimas coisas

O pavilhão alemão na Bienal de Veneza aborda as grandes questões existenciais, agitando as emoções. O júri elegeu-a como melhor apresentação dos países.

Michael Hierholzer

ESSE É O MAIS EXTRAORDINÁRIO pavilhão da Bienal de Veneza 2011. Todos, que se detêm lá por longo tempo, saem emocionados. O pavilhão alemão está cheio de sensações, de mensagens, pois o visitante se defronta lá com muito mais do que apenas ambiguidade. A ânsia pela felicidade frente à morte é um motivo central da instalação na sala principal do pavilhão, construída nos moldes de uma igreja católica. Mas esta instalação também evoca a im­possibilidade de alcançar a eternidade. Trata-se da fragilidade do corpo e da celebração do carnal. E da presença de um artista que pode ser vivido na memória. Christoph Schlingensief não pôde mais planejar o pavilhão alemão. O cineasta, diretor de teatro e ópera, ativista endiabrado e provocador, faleceu de câncer do pulmão em agosto de 2010, antes de completar 50 anos. Mas mesmo após a sua morte, em meio aos preparativos para a Bienal, Susanne Gaensheimer, comissária da apresentação alemã em Veneza, continuou a favor da concepção de Schlingensief, pois, para ela, ele fora “realmente uma cabeça crítica, política e incorruptível”. Por isso, depois de refletir um pouco, ela, diretora do Museum für Moderne Kunst de Frankfurt do Meno, decidiu mostrar, em Ve­neza, Schlingensief sem Schlingensief. Assim, ela fez um maior público internacional ficar conhecendo postumamente a figura desse artista que, como poucos da sua geração, sempre se dedicara às imagens reais e equívocas da Alemanha.

A apresentação alemã nessa mostra mundial na cidade das lagunas será realizada e cofinanciada no âmbito da política exterior de cultura e educação, a encargo do Ministério das Relações Exteriores. A atual contribuição aborda muitas questões, agita as emoções e é também um projeto artístico interativo. Isso tudo impressionou tanto os membros do júri, que o pavilhão alemão recebeu o Leão de Ouro como melhor participação. Os prêmios da Bienal, que dura até fins de novembro, são tradicionalmente distribuídos no começo da mostra. A última vez que o pavilhão alemão recebeu essa homenagem foi há dez anos, quando o prédio historicamente carregado de culpa – pois fora reformado pelos nazistas em estilo classicista – foi transformado por Gregor Schneider num labirinto de muros. Veneza 2011 oferece 89 participações nacionais nos Giardini e no Arsenale. A curadora Bice Curiger escolheu 83 ar­tistas para as exposições centrais nesses dois lugares. Além disso, ainda há inúmeras mostras em outros lugares. A arte relacionada com a Alemanha não acontece só no pavilhão alemão, mas também em Berlim, onde quase vinte artistas internacionais da Bienal têm a sua base criativa. E o alemão Thomas Killper expõe para a Dinamarca o seu “Pavilion for Revolutionary Free Speech”, absolutamente polêmico.

Um ponto de grande atração para todos os visitantes é, todavia, o pavilhão alemão, no qual o existencial está presente como quase em nenhum outro lugar desta Bienal. Colegas e amigos de Schlingensief projetaram o pavilhão segundo sua ideia. Aino Laberenz, a viúva de Schlingensief, participou ativamente no projeto que se baseia, sobretudo, no seu último trabalho como diretor: “Uma igreja do medo do estranho dentro de mim”, que fez sua estreia em 2008 na Trienal do Ruhr em Duisburg. O ponto central deste trabalho é um filme que abrange do catolicismo até o “Parsifal” de Wagner, evocando muita emoção, cuja sequência é permanentemente rompida por utensílios, como os usados por Joseph Beuys, e pela referência ao ininterrupto movimento em fluxo, mostrando a própria vida como obra de arte. O que emociona o público é, sobretudo, aquela franqueza radical, tão típica de Schlingensief, através da qual ele fala da sua doença de câncer e também do fracasso de todas as tentativas de transcender artística-religiosamente a enfermidade e a morte – o indivíduo é relegado a si próprio. Numa sala ao lado são apresentados filmes de Schlingensief, que comprovam sua fama de provocador. Outro filme mostra seu projeto de construir um teatro musical na África.

A ideia de construir um teatro perto da aldeia de Laongo, próximo a Ouagadougou, capital de Burkina Faso, é um projeto bem típico de Schlingensief, pois, à primeira vista, parece um tanto irreal, mas, à segunda vista, é muito profundo e sério. Junto com Francis Kéré, um arquiteto premiado de Burkina Faso, que vive em Berlim, Schlingensief já lançara no começo de 2010 a pedra fundamental para o teatro, que é muito mais que um teatro musical, pois deverá ter classes cinematográficas e musicais, escritórios, um campo de futebol, áreas agrícolas, um posto de saúde. Em Laongo deveria surgir toda uma aldeia musical, a Operndorf. E surgirá após a morte de Schlingensief: o projeto está sendo financiado por muitas pessoas e instituições, entre elas o Ministério das Relações Exte­riores e o Instituto Goethe. A Operndorf, legado de Christoph Schlingensief, continuará existindo. ///

14.07.2011
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