Língua alemã, língua difícil. Um velho ditado que muito colegiais tiveram de suportar – e um desafio diário para as 123 escolas alemãs oficiais espalhadas pelo mundo, com mais de 70 mil alunos. Como motivar os pais a permitir que seus filhos aprendam um idioma que possui quatro casos gramaticais, três gêneros, verbos com prefixo separáveis, tremas, a letra ß, e palavras com 20 letras ou mais? Por que ainda envolver-se hoje com o idioma de Goethe, Hegel e Kant, se há muito tempo todo mundo bate papo na internet e escreve e-mails em inglês?
Exatamente por isso, Trixi Kramer de Riva, diretora do jardim de infância do Colégio Pestalozzi de Buenos Aires, acha que as crianças deveriam aprender alemão tão cedo quanto possível. Num casarão reformado com muito gosto no bairro Belgrano, no norte da cidade, 212 crianças de dois a seis anos aprendem brincando as primeiras palavras do idioma. “Alemão é um diferencial valioso“, declara Kramer de Riva em meio a uma turma de crianças alvoroçadas, antes de chamar a atenção, em alemão bem claro, de um menino audacioso: “Kommst du bitte da runter“ (por favor, desça daí). Claro, aprender inglês é obrigatório. E alemão? “O alemão faz a diferença”, diz ela. Javier Fernández está terminando seus estudos no Pestalozzi. Após 15 anos de aulas de alemão, ele respira fundo e diz: “Realmente não foi fácil. Porém, quanto mais eu melhoro meu alemão, mais me fascino com sua exatidão, com a seriedade deste idioma”. Em dezembro, Javier prestará o exame do International Baccalaureate e, na ocasião, fará as provas de História e Biologia em alemão. E ele acaba de concluir uma “pesquisa histórica” em alemão. Os antepassados de Javier vieram da Espanha, de modo que, para ele, alemão é uma língua estrangeira, tanto quanto para quase todos os mais de mil estudantes do Colégio Pestalozzi e das outras 33 escolas oficiais alemãs na América Latina.
Já passou, há muito, o tempo em que os imigrantes corriam a matricular os filhos no Colégio Pestalozzi para aprenderem espanhol. O instituto foi fundado em 1934 pelo editor suíço-argentino Ernesto Alemann, que não aceitou que seu filho aprendesse no Colégio Goethe de então a canção nazista denominada “Horst-Wessel-Lied”. O Pestalozzi, uma instituição de ensino laico-republicana, tendo como modelo as escolas reformadas da República de Weimar – na época, uma proposta pedagógica alternativa –, transformou-se logo num porto da esperança para centenas de crianças judias que tiveram de fugir com seus pais da Alemanha nazista. Depois da Segunda Guerra Mundial, no prédio escolar ampliado várias vezes, foram feitas redações em alemão, ensinou-se poesias alemãs e canções alemãs foram cantadas, o que na época não era algo natural. Em 1958, quando o ensino médio foi introduzido, a escola retomou o contato com a Alemanha.
E desde 2003, o Colégio Pestalozzi tem novamente uma diretora enviada da Alemanha: Claudia Frey-Krummacher assumiu a delicada missão, e todos – alunos, professores e a associação cultural mantenedora da escola – estão felizes. A comunicativa renana tirou o colégio de um certo isolamento e promoveu contatos com a embaixada alemã, o Instituto Goethe e outras organizações culturais alemãs. Junto com os outros sete professores alemães e seus 25 colegas argentinos bilíngües – alguns deles, ex-alunos do Pestalozzi –, ela deu início à luta contra os clichês das calças de couro e da cerveja. A Alemanha deve ser vista como país que valoriza os valores democráticos, assume seu lugar na Europa, respeitando seus vizinhos, e recicla seu lixo. Um país normal, no qual clima e mentalidade são um pouco mais frios do que em Buenos Aires, e cujo goleiro anota, em um bilhete, as características dos possíveis batedores de pênaltis dos times adversários – nada impressionou mais os argentinos do que a lista de Jens Lehmann nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2006.
Não apenas na Argentina. No sul do Chile, em Valdivia, que recebeu muitos imigrantes alemães, o idioma deles também não passa hoje de uma língua estrangeira. O Instituto Carlos Anwandter festeja em outubro seus 150 anos de existência, mas está cheio de disposição para o futuro. Atualmente, a diretora Irene Eisele e sua diretoria preparam a introdução do International Baccalaureate. Em breve, também serão oferecidas aulas de Biologia e História em alemão. Situada na idílica cidade portuária, sempre verde, a escola mantém estreitas relações com a vizinha Universidad Austral, um endereço de elite para futuros agricultores, silvicultores e veterinários. Todos os anos, moradores de Valdivia vão estudar na Alemanha. Um acordo especial teuto-chileno permite acesso ao ensino superior alemão mesmo sem o certificado Abitur (do ensino médio alemão). Os estudantes de Valdivia fazem seus primeiros contatos com universidades alemãs ainda durante o período escolar, numa viagem à Alemanha. A estada de dez semanas junto a uma família alemã, coroada com uma volta pela Alemanha ou uma ida a Berlim no final, é um grande incentivo para quase todos os colegiais da América Latina aprender alemão. O Colégio Pestalozzi igualmente envia seus alunos com 16 anos para a grande viagem, assim como a escola alemã da Guatemala. Em contrapartida, estudantes alemães vão a Buenos Aires, Guatemala e Valdivia, onde assistem aulas.
Seguindo o exemplo dos EUA, no Chile são publicados regularmente rankings de escolas e o Instituto Alemán Carlos Anwandter tem lugar garantido entre as 50 melhores. O Colégio Pestalozzi também é tido como dos melhores endereços. Quem deseja matricular seu filho no jardim de infância, deve de preferência inscrevê-lo já antes mesmo do nascimento. Situação similar ocorre na escola alemã da Guatemala. O diretor Joseph Daum tem de selecionar, entre centenas de crianças com quatro anos, aquelas que têm possivelmente maior aptidão para aprender alemão. “Tarefa nada invejável”, diz ele. Sua escola é cobiçada, pois, além de emitir o certificado nacional de ensino médio, também oferece o Abitur alemão e adicionalmente ainda uma formação profissional em administração industrial e de comércio atacadista e varejista. Com isso, os alunos aprendem a teoria na escola e vivenciam experiências práticas em filiais guatemaltecas de empresas alemãs. “Quem possui esta formação, é bastante procurado pelas empresas alemãs”, relata Daum. Mas não só na Guatemala. A formação industrial e comercial, mais o aprendizado do alemão, significam um trunfo duplo junto às empresas alemãs em toda a América Latina.













