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Martin Reischke

Omar Rincón é um homem valente. Para definir seu próprio ramo de trabalho, o jornalista colombiano só consegue tecer um cumprimento venenoso. “Existem jornalistas muito bons na América Latina”, diz Rincón. “Mas a qualidade dos meios de comunicação é, infelizmente, miserável”. Rincón é coordenador do C3 (Centro de Competência em Comunicação para a América Latina), em Bogotá, que a Fundação Friedrich Ebert fundou em 2004. Para ele, são três os problemas que levaram o jornalismo à crise na América Latina: as estruturas monopolistas no setor de comunicação, a frequente restrição à liberdade de informação e a difícil relação entre política e empresas de comunicação. “Muitos governos travam uma verdadeira guerra com os veículos de comunicação”, denuncia Rincón. “E esta conduta é amplamente aceita pela opinião pública”.

No entanto, a própria imprensa faz, cada vez mais raramente, uso de sua função informativa e fiscalizadora e assume, com frequência, tarefas genuinamente políticas. “Os meios de comunicação transformaram-se em representantes de interesses, que desejam resolver os problemas de sua própria clientela”, afirma Rincón. Por isso, temas como comunicação política e liberdade de informação são analisados cientificamente no C3 e, depois, publicados. Assim surgiram, por exemplo, estudos sobre as estratégias de comunicação de presidentes latino-americanos ou sobre os papéis da mídia em campanhas eleitorais de diversos países latino-americanos. As publicações podem ser encontradas não só em instituições acadêmicas de todo o continente, mas também, na melhor das hipóteses, nas prateleiras de livros dos próprios protagonistas: profissionais da comunicação, políticos ou seus assessores de relações públicas e portas-vozes. “Não por acaso, Omar Rincón deseja a si mesmo ‘autorreflexão’, uma palavra ainda estranha à maior parte dos profissionais da comunicação na América Latina.“

Fraquezas similares à indicada por Rincón também vê Peter-Alberto Behrens, coordenador do programa latino-americano de comunicação da Fundação Konrad Adenauer. “Ao mesmo tempo que as condições legais da imprensa em geral, tem de melhorar o relacionamento entre instituições políticas e jornalistas”, diz Behrens. Por esta razão, a fundação orienta tomadores de decisões políticas, entre outros, na preparação de novas leis. Por exemplo, no Peru. O país sul-americano deseja reorganizar o sistema público de radiodifusão. A fundação apresentou ao Parlamento em Lima o modelo dual da radiodifusão alemã e também deverá produzir um parecer. Behrens está ciente da dificuldade de sua missão: “Tem de haver uma abertura para a consultoria, a fim de que possamos trabalhar”, diz Behrens. “Ao mesmo tempo, existe sempre o perigo de se ser instrumenta­lizado politicamente pelo outro lado”. Portanto, a perspectiva de um debate pluralista é pré-requisito para uma cooperação. “Evidente que também haverá no Peru parlamentares contrários a nossas propostas”, acrescenta. “Faz parte do costumes democráticos, mas é preciso manter sempre o foco no assunto em si”.

A fundação também organiza eventos com foco político. Por isso, seus seminários tratam sempre de questões relevantes na agenda da instituição ligada à CDU (União Democrata Cristã). Em novembro, jornalistas e assessores políticos e de imprensa reuniram-se para um workshop no Rio de Janeiro. O tema: a interpretação da economia social de mercado pelos meios de comunicação. “A América Latina é econômica e politicamente um continente de extremos”, declara Behrens. “Nos anos 1990, muitos países tinham a marca do neoliberalismo. Hoje, vivemos uma reorientação para o intervencionismo estatal”. No seminário, a economia social de mercado foi apresentada como alternativa e discutida pelos participantes: “Para nós, o evento nos permite também reunir jornalistas e assessores em uma só mesa”.

Diferentemente das iniciativas das fundações políticas, a Academia DW (divisão de ensino da emissora Deutsche Welle) oferece, antes de mais nada, capacitação jornalística. “Somos aqueles que nos preocupamos com a formação básica e prática”, diz Petra Berner, chefe do Departamento América Latina da Aca­demia DW. Uma tarefa importante, uma vez que muitos países latino-americanos possuem um problema comum: trabalhadores, sobretudo de veículos locais, têm dificuldade de acesso à formação jor­nalística e muitos jornalistas iniciaram a carreira por oportunidade, sem qualquer capacitação e conhecimentos prévios da profissão. A Academia DW deseja mudar isso e concentra sua atuação em países prioritários, como Colômbia, Bolívia, Brasil e Equador, além dos centro-americanos Nicarágua, Honduras e Guatemala. “Prefe­rimos fazer muito em poucos países do que o contrário”, enfatiza Berner. Em vez de promover workshops isolados, a Academia DW prioriza consultorias de longo prazo a redações.

Uma das prioridades é o trabalho de rádios comunitárias, que geralmente, sob condições precárias, prestam importante serviço de informação básica à população, mas raramente possuem estrutura profissional. “Muitas emissoras não se veem como meio de comunicação, porém como organização de base”, diz Berner. “Por isso, também falta sensibilidade para reportagens imparciais”. Em conjunto com a Universidad del Norte, em Barranquilla, a Academia DW apoia seis rádios comunitárias e seis emissoras locais de televisão na Colômbia. O primeiro passo foi capacitar dois jornalistas de cada emissora para a redação profissional de notícias. Gerentes e produtores de rádios comunitárias também receberam treinamento. Agora, a Academia DW está verificando a quais estações poderá dar consultoria de longo prazo. Especialistas da DW irão, então, tentar otimizar os processos de redação.

Berner acredita que a iniciativa terá o efeito de uma bola de neve. O novo know-how aprendido deverá espalhar-se rapidamente. Entretanto: “Não podemos obrigar ninguém a isso, afinal até agora não disponibilizamos dinheiro algum”. Mas já se podem ver os primeiros resultados, que correspondem à esperança de Berner. As emissoras de tevê, que participam do projeto, já começaram a implementar uma plataforma de internet para a troca de programas. E alguns jornalistas treinados pela DW estão treinando, em pequenos seminários, seus próprios colegas, também sem apoio financeiro da Academia. Com isso, seu trabalho tem um efeito sustentável e estimula não só um jornalismo consciente e profissional, mas também o desenvolvimento democrático do país.

30.10.2009
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