Domingo, 27/05/2012 07:52
 
 

Atualidade

Viagem pela música e a cultura da África

Confira a alegria de viver dos africanos: astros da música de Cabo Verde e do Senegal estarão este ano em destaque nos...mais

© Thomas Dorn

Atualidade

Economia

Presidente do banco do Vaticano é afastado do cargo  

Cultura e Estilo

Exposição mostra a moda europeia do Iluminismo à Primeira Guerra Mundial  

Cultura e Estilo

Dresden comemora 500 anos da pintura "Madona Sistina"  

Perfil

Vizinhança ecológica

Adriana López, da Colômbia, desenvolve em Bonn, na Universidade das Nações Unidas, modelos para melhorar ecologicamente...mais

Eventos

Vida em quadrinhos

Uma viagem de descobrimento ao mundo dos super-heróis. O museu Europäische Kulturen...mais

Link

Alemanja

PORTAL ALEMÃO PARA A LUSOFONIAmais

Bookmarks
| |

Quanto material contém a Virada?

Literatura sobre a Virada

Que significado tem a Queda do Muro para a literatura alemã? Quanto material contém a unidade? O suficiente para o “grande romance da Virada”? Vinte anos após o dia 9 de novembro de 1989, várias coisas se tornam mais claras

Jörg Magenau

Hans-Ulrich Treichel estava no dentista no dia 9 de novembro. Na sua agenda, a manhã do próximo dia estava marcada para um seminário sobre Gottfried Benn, na Freie Universität de Berlim, e ele não tinha dúvidas de que isto também aconteceria. Regulamento de serviço. Sem sua agenda, ele não se lembraria de tal coisa sem importância. Para Marcel Beyer, essa data “lembra seu primeiro carro próprio”. Ulrike Draesner estava escrevendo seu doutorado em Munique e só ficou sabendo da Queda do Muro quando os primeiros Trabis (carros da RDA) entraram em Munique. Katja Lange-Müller, que se mudara em 1984 de Berlim Oriental para Berlim Ocidental, estava em viagem de palestras literárias, passando a noite num hotel de Bochum, sem se dar conta de nada. A maioria dos escritores alemães, pelo menos no Oeste, não realizou a noite das noites. O dia 9 de novembro aconteceu sem eles. Assim, pelo menos, é o que está na antologia “Die Nacht, in der die Mauer fiel” (A noite em que o Muro caiu), que reúne as recordações que escritores tiveram desse dia. Ao contrário, os jovens da Alemanha Oriental estavam cumprindo o serviço militar no Exército Nacional Popular, como Jochen Schmidt, Uwe Tellkamp ou André Kubiczek, não estando entre os dançarinos do Muro. Entre seus companheiros da mesma geração, a atmosfera era antes confusa. A Queda do Muro significou o fim da fase do exagero revolucionário, na qual os participantes acreditavam ser vultos da História. Para a própria surpresa, eles notaram que quase nem tinham mesmo compreendido que tinham conseguido algo e isto já era passado. Para as gerações posteriores, as histórias da Queda do Muro de Berlim soam como um conto de fada. Um acontecimento concreto e histórico submerge, com o passar do tempo, na História, adquirindo cada vez mais traços míticos. A designação vaga e pouco acertada “Queda do Muro” impôs-se, levando, todavia, os acontecimentos ao irreal. Um tanto cansado, um tanto idoso, ele acabou caindo aos poucos: mas neste conceito não se prevê mais um sujeito ruindo. Que mundo estranho, inconcebível: uma cidade dividida por um muro. Pessoas mortas a tiros ao tentar transpor a fronteira. A dança sobre o Muro. Os “pica-paus do Muro” que esburacaram o concreto. E também o emissário do poder da RDA, que teve de ler, gaguejando, um pedaço de papel, anunciando a abertura da fronteira, como se não tivesse entendendo do que se tratava, é parte do acervo de figuras míticas. O cientista político Herfried Münkler, que acaba de ser agraciado com o Prêmio da Feira do Livro de Leipzig pelo seu livro “Os alemães e seus mitos”, lastima que a República Federal da Alemanha não ­tivera, desde a sua fundação em 1949, ­nenhum mito central a que pudesse se ­referir e que pudesse ter marcado a sua identidade. A Queda do Muro poderia preencher essa lacuna para a nova Alemanha. Neste particular, a literatura desempenha um papel importante como narradora da história.

Anos a fio esperou-se ansiosamente que os folhetins publicassem o “grande romance da Virada”. Não importava quantos livros eram publicados sob esse rótulo: a espera continuava. E muitos livros, como “Moskauer Eis”, de Anett Gröschner, “Landnahme”, de Christoph Hein, “Spiegelland”, de Kurt Drawert, ou “Zimmer­springbrunnen”, de Jens Sparschuh, não foram reconhecidos como romances da Virada. Apenas agora, depois de cinco, seis anos, a atitude de espera se dissolveu e, assim, a literatura está recebendo o ar para respirar livremente.

Entretanto surgiu uma série de livros que tratavam muito naturalmente do ano de 1989 e de suas consequências, sem a pretensão de ser, ao mesmo tempo, o grande romance da Virada: “Mit der Geschwindig­keit des Sommers”, o pequeno romance de Julia Schoch, pode ser mencionado aqui em primeiro lugar – um réquiem para a RDA, localizado numa pequena cidade de Meclemburgo, antigamente dominada pelas tropas do Exército Nacional Popular e onde a irmã da escritora se apaixonara por um soldado. Agora ela cometeu suicídio em Nova York. Este é o motivo, porque a escritora segue suas pegadas: o estresse na liberdade corresponde à harmonia de antes. Assim, ela une o passado ao presente.

Em 1995, quando o romance “Heróis como nós“, de Thomas Brussig, foi festejado como o primeiro romance da Virada, o dia 9 de novembro ainda estava bem próximo. Brussig tratou com escárnio e ironia mordaz o páthos do momento histórico e a ideológica exaltação do período pós-Virada. Ele descreve a Queda do Muro como um evento grotesco, a revolução como uma piada sem graça da história. Em 2009, Angelika Klüssendorf aborda sem muito alarido, mas psicologicamente com exatidão, a situação erótica do momento revolucionário. “Amateure” é o título do novo volume de contos da autora, nascida em 1958 na Alemanha Ocidental, que emigrou em 1961 para a RDA, crescendo lá e voltando para a República Federal da Alemanha em 1985. Seus contos, de uma clareza sedutora, estão muito unidos ao contexto Leste-Oeste, estendendo-se do outono de 1989 até uma estranha comemoração do “Dia da Unidade Alemã”, em 3 de outubro de 1990, aprofundando-se na década de 1990. O processo da unidade é narrado em tentativas repetidas, através de histórias de casais. Os homens são sempre do Oeste. Eles são dentistas, produtores de tevê, ou valentões dirigindo Jaguar. Um desses pares encontra-se naquele lendário dia 9 de novembro em cima do Muro. Ele sobe no Muro do lado oeste, ela do leste, em cima eles se beijam espontaneamente, trocam os números de telefone. A história amorosa seguinte trata de desentendimentos e estranheza, sendo assim um aspecto sintomático da aproximação alemão-alemã, do ponto de vista da autora. Klüssendorf narra a Queda do Muro como nova versão do conto de fadas sobre os filhos do rei que não conseguem se encontrar.

O mais voluminoso e mais importante romance da Virada é “Novas Vidas”, de Ingo Schulze. Foi preciso que se passassem quinze anos para que se pudesse ver o fim da RDA com a distância necessária. Schulze descreve o ano de 1989 como um momento de transição na vida de Enrico Thürmer, seu personagem que escreve cartas e narra a história. Ele trabalha na RDA como dramaturgo, tornando-se depois editor de um jornal de classificados. Uma pessoa que se ocupa da língua passa a ser uma pessoa que se ocupa de números e economia. Isto acontece, sem que ele o planeje. A Virada assume a rédea sobre as pessoas e suas vidas. É estranho que as partes mais chatas do romance são as que se desenrolam no outono de 1989. Talvez porque já lemos tanto sobre esse tempo, e mesmo um grande escritor como Ingo Schulze só pode descobrir nele pouca coisa surpreendente. Os temas – sejam as Manifestações das Segundas-Feiras em Leipzig ou os encontros nas “mesas redondas” – já são conhecidos e estão desgastados demais para poder arrebatar. Do ponto de vista literário é mais produtivo evitar os caminhos já desgastados dos negócios políticos do dia-a-dia. “Adam und Evelyn”, o romance de Ingo Schulze, publicado no verão de 2008, mostra elegantemente um capriccio ligeiro sobre uma fuga para o Oeste, que parece ser a saída para o paraíso. Mas, onde ficava o paraíso? Ficava realmente no Oeste? Ou será que isto – e Schulze é desta opinião – não era devido ao fato de que as pessoas na RDA sempre se transportavam em desejos para outro mundo, um mundo melhor, uma situação que terminou abruptamente em 1989? Com o Oeste, perdeu-se a transcendência, diz Schulze.

Atualmente, o último romance sobre a Virada é “Der Turm”, de Uwe Tellkamp, que ganhou o Prêmio Alemão do Livro no ano passado. Tellkamp narra os últimos dias da RDA através da perspectiva da classe média em “Weisser Hirsch”, um lugarejo no subúrbio de Dresden, onde as pessoas combatem as sujeições do dia-a-dia da RDA através de quartetos de corda e literatura clássica. Ele descreve o cansaço geral dessa sociedade, sua falsidade e sua moral, sua covardia e sua coragem e todas as manobras táticas de acomodação, que também eram necessárias quando se queria apenas ficar de fora. O romance desemboca no outono de 1989, no grande “turbilhão da história”. Os relógios entoam os golpes pesados do destino, que nada mais são que presságios sussurrantes. Talvez Tellkamp tenha tido medo de cair em clichês. Talvez não seja mais interessante narrar a Queda do Muro depois da fase da agonia. Só depois se torna novamente interessante. Mas isto já é uma outra história.

25.03.2009
Bookmarks
| |