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Cooperação

Cozinhar para a proteção climática

Substituir fogueiras por modernos fogões a lenha pode salvar a vida de centenas de milhares de pessoas e proteger o clima. A cooperação alemã para o desenvolvimento engaja-se há anos neste campo. No Peru, com grande sucesso.

Michael Netzhammer

A cozinha era tabu. Yeny Landa Medrano jamais levava visitas a sua cozinha. Por vergonha. “Antigamente, as paredes eram pretas de fuligem. Eu cozinhava no canto sobre três pedras em uma fogueira. A cozinha ficava cheia de fumaça e, por causa disso, meus filhos estavam sempre doentes”, diz ela. Agora, a porta está aberta. O cômodo é claro e limpo. Graças ao novo fogão no canto, feito de argila. A câmara de queima em cerâmica é uma inovação. Ela assegura que a lenha queime de forma eficiente, reduzindo seu consumo e sem gerar fumaça tóxica. A família Medrano mora em Tapaya, um pequeno arraial no alto dos Andes peruanos. Diante da porta, a mãe, com seus longos cabelos negros, olha para as montanhas e as colinas verdes. “A madeira é escassa aqui no alto e por isso muito cara”, conta Yeny Medrano.

Em todo o mundo, mais de três bilhões de pessoas ainda preparam sua comida em fogueiras ou fogões ineficientes, tal como esta jovem mãe peruana. Quem cozinha em meio à fumaça tóxica, inala tantas substâncias nocivas quanto um fumante contumaz. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que esta situação leve, a cada ano, mais de 1,6 milhão de pessoas, sobretudo crianças e mulheres, à morte. Cozinhar assim, portanto, mata mais gente do que a malária. Outro problema é o monstruoso consumo de biomassa. Todos os dias são queimadas, sob panelas e frigideiras, mais de três milhões de toneladas de lenha. Em muitas regiões, a madeira está se tornando escassa. Mulheres como Yeny Medrano passam horas procurando lenha – tempo que lhes falta depois para os filhos ou para algum trabalho produtivo. Ou precisam comprar carvão e gastam com isso até um quarto de sua renda. A ineficiência na cozinha mantém as pessoas pobres. Milhões de fogueiras de cozinhar também influenciam o clima. Somente a queima de biomassa libera 3% das emissões de dióxido de carbono e até mesmo 5% das emissões mundiais de gás metano.

Com que fogão se cozinha não é, portanto, apenas uma questão de gosto. Fogões modernos podem salvar vidas, prevenir mulheres e crianças de doenças, reduzir a pobreza e proteger o meio ambiente e o clima. Até há pouco tempo, somente especialistas em desenvolvimento sabiam deste potencial. Em setembro de 2010, porém, governos, organizações, empresas e fundações criaram a Aliança Global por Fogões Limpos. Meta da iniciativa é, até 2020, apoiar a propagação de 100 milhões de fogões eficientes. Entre os fundadores desta aliança global estão organizações das Nações Unidas, como a OMS e a Organização Mundial para Agricultura e Alimentação (FAO), a Fundação das Nações Unidas, os governos dos EUA, da Noruega e do Peru. Membros fundadores são também o governo alemão e a Sociedade Alemã de Cooperação Internacional (GIZ). A GIZ desenvolve e distribui fogões, em nome do governo alemão, há quase 30 anos, na África e na América Latina. Seu know-how está sendo colocado à disposição da iniciativa. “É importante que associemos nossa perícia no ramo e os recursos financeiros, pois propagar fogões é uma tarefa complexa”, diz Marlis Kees, chefe do programa setorial “Abastecimento Básico de Energia Orientado à Pobreza” da GIZ.

Moradores de cidades cozinham diferente das pessoas no interior. Geografia, clima e alimentos disponíveis marcam as culturas culinárias regionais. Que fogão as pessoas usam, depende de seu poder aquisitivo e sua aptidão em se adaptar a modernas tecnologias. Especialmente as mulheres precisam ser convencidas da mudança de tecnologia. “A cozinha é um lugar geralmente cheio de tradições”, afirma Kees. A arte de cozinhar passa de geração em geração. Só se consegue uma mudança quando se respeitam tradições culinárias e se produzem fogões adequados a elas. A GIZ aposta, por isso, na formação de mercados locais e regionais para fogões modernos. Para isso, adapta o design do fogão moderno às condições locais, disponibiliza seu know-how para empresas, treina, juntamente com or­ganizações parceiras, potenciais fabricantes de fogões e inicia campanhas de informação e esclarecimento. Bom exemplo desta atividade é o Peru.

Neste país formou-se uma aliança entre organizações nacionais e internacionais, governos e instituições. O governo peruano está entre os mais avançados do mundo, no que se refere à difusão de fogões. Uma das razões é que Pilar Nores, esposa do ex-presidente Alan García, dedica-se há muitos anos à propagação de fogões modernos, junto com especialistas em desenvolvimento. “Para melhorar a saúde de crianças e mulheres, fogões limpos são essenciais”, diz a fundadora da organização de ajuda Sembrando. “Em nossas campanhas de esclarecimento, nós re­comendamos, por exemplo, que sempre se ferva a água. Mas, se as pessoas fizerem isto em fogões abertos, ficarão doentes mesmo assim”.

Com seu fogão, Yeny Landa Medrano pode cozinhar e, ao mesmo tempo, ferver sua água. “Na primeira boca, diretamente sobre o fogo, preparo nossa comida. Na outra, fervo nossa água, sem precisar consumir mais lenha”, diz Yeny Landa Medrano. A câmara de queima, sob a primeira boca, está ligada lateralmente à segunda boca. O ar quente circunda a panela antes de sair pela chaminé. Com outras organizações, Pilar Nores criou no Peru a iniciativa “Meio Milhão de Fogões sem Fumaça”. A GIZ também pertence ao grupo de fundadores. “Nós cooperamos com o programa governamental ‘Juntos’, que paga uma bolsa de auxílio social a 420 000 pessoas. Através dele temos uma ligação direta com a população necessitada”, diz a colombiana Ana Moreno, chefe do projeto Energising Development (EnDev). O EnDev cuida, por um lado, da capacitação de fabricantes de fogões e, por outro, o projeto testa todos os tipos de fogões usados no programa, seja no centro de testes em Lima, seja também no campo.

O trabalho da campanha está rendendo frutos. Prefeituras e governos regionais, bem como empresas – por exemplo, proprietários de minas –, ONGs e fundações, passaram a investir na propagação dos fogões. Ainda há muito que fazer. Dois milhões de peruanas ainda cozinham de forma ineficiente e perigosa. Com a campanha, entretanto, o país sul-americano está no bom caminho e serve de modelo para outros países na América Latina e no mundo.///

18.11.2011
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