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País da ciência

Clima de inovação

O que faz da Alemanha um país da ciência? Onde estão seus fortes e suas particularidades? Falamos com cientistas alemães e internacionais, com peritos universitários e estudantes

Entrevistas: Dorit Amelang com Prof. Dr. Jürgen Mlynek, Prof. Dr. David B. Audr

“Ótimas condições”

Prof. Dr. Jürgen Mlynek, presidente da Sociedade Helmholtz

Prof. Mlynek, o que caracteriza a Alemanha como país da ciência?

São sobretudo duas coisas. As pessoas com boa formação e a infra-estrutura. Pós-doutorandos alemães são muito estimados internacionalmente – seu grande potencial impulsiona a Alemanha. Além disso, temos uma infra-estrutura que facilita muito a vida, moderníssimas plataformas de tecnologia e grandes aparelhos para a pesquisa de ponta.

 

A Alemanha tem algo a oferecer que outros países talvez não tenham?

Uma boa mistura de continuidade e do desejo de renovação. Um exemplo? Em Hamburgo, está sendo construído um laser de raios X único no mundo. Para tanto é necessário um imenso prazo introdutório e um aproveitamento de até 25 anos. Tais projetos, que pressupõem novos raciocínios e longo planejamento, podem ser realizados da melhor maneira na Alemanha.

 

E ao contrário: em que setor tem de haver melhora?

Temos um claro déficit nas condições básicas. Infelizmente, instituições científicas ainda são tratadas como uma autoridade pública subalterna. Precisamos de mais autonomia, menos burocracia e mais espaço livre, sobretudo para poder agir empresarialmente. Segundo o Tratado de Lisboa, a Alemanha comprometeu-se a aumentar as despesas de educação a 3% do PIB até 2010. Neste particular temos que melhorar claramente.

 

Diz-se às vezes que não falta pesquisa de ponta na Alemanha, mas falta sim pô-la em prática. Como se pode mudar isso?

Este é um tema difícil. Certamente temos que nos perguntar com mais insistência: vale a pena proteger também intelectualmente uma descoberta de laboratório? E temos de encorajar mais os jovens a ver a própria autonomia como alternativa, ao lado de uma atividade em grande empresa. Vamos sair da estigmatização de erros e partir para a coragem do risco.

 

No mundo globalizado, a internacionalização de um país de conhecimento é um tema importante. Como a Alemanha se encontra nessa relação?

A Alemanha está internacionalmente bem posicionada. Mas gostamos de esconder nosso brilho. Apenas na Sociedade Helmholtz pesquisam, todo ano, cerca de 4000 a 5000 cientistas convidados de todo o mundo. Eles vêm para cá porque encontram aqui ótimas condições. Seria melhor se tivéssemos menos barreiras na política de imigração, precisamente na procura de jovens cientistas das disciplinas de engenharia.

 

O senhor estudou na Alemanha e em Paris, pesquisou nos EUA e na Suíça, voltando a trabalhar na Alemanha em 1990. O que o trouxe de volta?

Quem tem uma boa idéia, pode realizá-la na Alemanha. Essa certeza eu já tinha na época e estou convicto de que ela ainda é válida. Além disso, a Alemanha é minha pátria, alemão é a minha língua materna e minha cultura.

 

“Aqui há uma forte base científica”

Prof. Dr. David B. Audretsch, EUA, Diretor de Economia no MPI

Desde 2003, o senhor é diretor de Economia no Instituto Max Planck em Jena. O que o levou, como norte-americano, a pesquisar na Alemanha?

Durante as décadas de 80 e 90, eu vivi em Berlim. Naquela época, durante e pouco após a queda do Muro, houve desenvolvimentos na política econômica que me fascinaram. Também hoje é interessante ver, por exemplo, como a Alemanha reage frente à globalização. Isso me interessa não apenas como pesquisador. Moro em Weimar e gosto de viver no Leste. As pessoas aqui são muito simpáticas e eu gosto da cultura e da natureza.

 

Na sua opinião, o que caracteriza a Alemanha como país da ciência?

Penso que é a perspectiva de longo prazo, com a qual se pesquisa e trabalha aqui. Na Alemanha, a ciência é levada a sério e há também profundas raízes e tradição. Além disso, a formação da nova geração de cientistas é profunda e competente. Assim, há aqui uma forte base científica.

 

O deveria ser melhorado?

A flexibilidade. Isto é uma questão da organização. Com mais liberdade, cada um poderia aplicar melhor seus fortes, seja na pesquisa ou no ensino. Eu desejo – e já vejo quase que como uma tendência mundial – que os pesquisadores sejam menos funcionários públicos e mais cabeças criativas e produtivas.

 

A Alemanha tem algo que nenhum outro país tem?

São as instituições de pesquisa, como a Sociedade Max Planck, os Institutos Fraunhofer e a Sociedade Helmholtz. Nisto é de se ter inveja da Alemanha. E isto assegura uma vantagem de competição científica internacional para a Alemanha.

 

“Trabalho com os melhores do mundo”

Prof. Dr. Ignacio Cirac, Espanha, Diretor de Óptica Quântica no MPI

Professor Cirac, o senhor foi agraciado com o notável Prêmio Príncipe de Astúrias e trabalha desde 2001 como diretor no Instituto Max Planck de Óptica Quântica perto de Munique. Por que o senhor se decidiu pela Alemanha?

No Instituto Max Planck, posso me concentrar totalmente na minha pesquisa, sem necessitar de me preocupar com o financiamento. Ao contrário: o financiamento é bom e sólido. Além disso, trabalho com os melhores pesquisadores do mundo nessa área. Eles são meus colegas e trabalham quase ao lado.

 

O que caracteriza em especial a Alemanha como país da ciência?

Na Alemanha, há uma tradição de pesquisa que também noto na sociedade. Em quase todas as revistas há algo sobre tecnologia ou pesquisa. Há museus que se ocupam com temas científicos. Por outro lado, nós, os pesquisadores, experimentamos um grande apoio. E há as iniciativas de excelência, convites da DFG para trabalho em rede ou bolsas da Humboldt. Além disso, há inúmeras possibilidades de financiamento, tanto que se podem realizar bem as idéias. Para a Baviera, posso indubitavelmente confirmar isso.

 

O que deveria ser melhorado?

Jovens cientistas se tornam freqüentemente autônomos muito tarde. Por isso, considero a “Junior-Professur” (cátedra-júnior) um bom passo em direção a mais autonomia.

 

O que outros países não oferecem?

Os doutorandos na Alemanha têm maior chance de ser contratados por grandes empresas do que seus colegas europeus na Espanha ou Itália. Aconselharia a todo doutorando ir para o estrangeiro para ampliar seu horizonte.

 

“É preciso prestar atenção no que os rankings medem”

Dra. Sonja Berghoff, diretora de projeto no Centro de Desenvolvimento Universitário (CHE)

Nos rankings internacionais, as universidades alemãs não ocupam os melhores lugares. Por quê?

É preciso prestar atenção no que os rankings medem. As ciências naturais levam maior vantagem através dos métodos de sondagem. Todavia, as universidades alemãs têm tradicionalmente um amplo campo de disciplinas. Para o Shanghai-Ranking, foi averiguado o número de publicações em revistas internacionais. Por isso, as publicações alemãs não alcançam um valor alto. Outro motivo é que apenas a pesquisa universitária é avaliada. Não se consideram os grandes desempenhos extra-universitários de instituições de pesquisa na Alemanha.

 

Em fins de 2007, o CHE publicou um primeiro ranking das 4000 universidades na Europa. Qual é a média das universidades alemãs, o que foi medido?

As universidades alemãs têm aqui uma média muito boa e não precisam temer a comparação internacional. Nós ainda estamos no princípio e não o interpretamos apenas como ranking, mas também como informação para universidades e estudantes. Aqui eles podem ver quem, onde e em que ramos se está pesquisando na Europa. Primeiramente, nos concentramos nas ciências naturais, analisando publicações, buscando pesquisadores muito citados e avaliando o engajamento nas redes européias. Agora, vamos tentar ampliar o ranking a outras disciplinas.

 

Com o ranking universitário do CHE, a senhora também avaliou as universidades alemãs. Qual foi a melhor colocada?

Infelizmente não posso citar isoladamente. Só isto: constatamos uma grande correlação entre nosso ranking, a Iniciativa de Excelência e o ranking de fomento da DFG. Na liderança estão quase sempre as mesmas. Mais em: www.che-ranking.de

 

“Liberdade na pesquisa promove inovação”

Dr. Kazuaki Tarumi, Japão, Diretor de departamento na Merck KGaA

O senhor é diretor de departamento na pesquisa de cristal líquido da Merck e portador do Prêmio Alemão do Futuro. Por que o senhor se decidiu pela Alemanha?

Decisivo, entre outros, quando vim para a Alemanha como bolsista do DAAD, foi que a Alemanha era líder na física teórica no setor da pesquisa do caos. Além disso, a mudança da universidade, depois de um longo tempo de pesquisa básica, para uma empresa é na Alemanha mais fácil do que no Japão.

 

Na sua opinião, o que caracteriza a Alemanha como país da pesquisa?

O que me agrada é que se quer basicamente compreender os objetos da pesquisa e então se discute sobre muitos princípios. Somente com tal liberdade na pesquisa de base é que se chega a verdadeiras inovações. Aqui, os cientistas não precisam se limitar em modificar os resultados de pesquisa existentes.

 

O que deveria ser melhorado?

Há dificuldades na realização: os resultados da pesquisa têm de ser implementados e, como produto, distribuídos no mundo. Para tanto, é necessário que haja acordo sobre um resultado e que este seja levado adiante em conjunto.

 

O que o senhor acha particularmente interessante para a carreira profissional na Alemanha?

Acho boa a prontidão da indústria em dar empregos também aos “especialistas inflexíveis” da universidade – como eu também o sou. No Japão, a gente tem de começar a trabalhar numa empresa diretamente após o estudo, se quiser fazer carreira. Na Alemanha, os especialistas são aceitos, não importa onde cada um esteja na sua carreira.

 

“A Iniciativa de Excelência despertou meu interesse”.

Antonio Pelegrina, Espanha, Estudante Erasmus na LMU de Munique

Sr. Pelegrina, o senhor se decidiu por um estudo Erasmus no estrangeiro. Que motivos foram a favor da Alemanha?

Queria aprender uma nova língua que até então não conhecia e que me levaria adiante. Além disso, queria ir a uma universidade que tivesse boa fama.

 

O que o senhor sabia antes da Alemanha, como país de estudo e pesquisa?

A Alemanha para mim era desconhecida. Mas eu tinha ouvido da Iniciativa de Excelência, com a qual a Alemanha vem incentivando as universidades desde 2006 com um financiamento extra, apoiando sobremaneira algumas universidades de ponta. Isto despertou meu interesse por um estudo na Alemanha.

 

E o que foi decisivo para o senhor vir à Ludwig-Maximilians-Universität de Munique (LMU)?

A LMU é uma das nove universidades alemãs de ponta. Ela é famosa e internacionalmente bem conceituada – também na minha disciplina, a Física. Meus professores na Espanha contaram-me das boas condições de estudo, aconselhando-me a estudar no estrangeiro, na LMU. Além disso, Munique é uma linda cidade, muito internacional e com uma grande oferta de cultura e lazer.

 

Houve algo que o surpreendeu muito na sua universidade alemã?

Na Espanha, eu não conhecia os “Referate” que os estudantes normalmente fazem aqui nos seminários. Proferir uma conferência diante do professor e dos outros alunos foi novo para mim. Mas essas apresentações são também uma experiência muito instrutiva que certamente será depois importante para a minha vida profissional.

28.01.2008
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