Encontros interculturais existem em muitas lugares da Alemanha: em festas de vizinhos e de bairros, nas quadras de esporte, nos centros da juventude, nos locais de trabalho, nas escolas e nos jardins de infância. Mesmo assim fica cada vez mais claro: encontros apenas não criam convivência. Por esta razão, muitas pessoas e instituições engajam-se firme em toda a Alemanha pela convivência intercultural. Elas estão abrindo caminho para uma melhor compreensão mútua e fortalecendo assim o sentimento do “nós” no cotidiano.
Quantos projetos e iniciativas existem em todo o país, ninguém sabe exatamente. Só uma coisa é certa: seu número é da ordem dos milhares. Um exemplo é a Fundação Körber, em Hamburgo. Desde 1999, ela agracia com a Tulipa Hamburguesa projetos que, de forma exemplar, constróem pontes entre hamburguesas e hamburgueses, com e sem história de migração. O vencedor do prêmio em 2008 chama-se Switch e reúne, de forma incomum, crianças de diferentes círculos culturais (veja página 62). Não é sem razão que o prêmio leva o nome Tulipa. A flor foi escolhida porque ela “mesma é, por sua origem, uma imigrante e está perfeitamente integrada no país”, segundo a fundação. As primeiras cebolas de tulipas chegaram há cerca de 450 anos na bagagem de um enviado europeu que retornava do Império Otomano para a Europa Ocidental.
Quase 600 quilômetros mais ao sul, o espírito intercultural se manifesta de modo bem diferente. Com 65 mil imigrantes, Mannheim, uma cidade com 327 mil habitantes, possui uma das mais altas cotas de estrangeiros da Alemanha. Há séculos ela desponta como um dos modelos de comunidade, quando se trata de convivência entre alemães e imigrantes. Em toda a Alemanha, conhece-se até mesmo a expressão “modelo de Mannheim”. Uma das iniciativas de maior destaque é o Instituto de Estudos de Integração Turco-Germânicos. Ele surgiu em 1995 durante o debate em torno da construção de uma nova mesquita. Naquela época, ficou claro para todos os participantes que faltava uma ponte entre a sociedade cristã e a muçulmana: tanto para desarmar preconceitos em ambos os lados, quanto para promover a compreensão entre si e o conhecimento sobre o outro. O instituto atua juntamente com organizações comunitárias, escolas, congregações muçulmanas e igrejas pela comunicação e sensibilização intercultural e interreligiosa da sociedade acolhedora e dos imigrantes. Hoje, faz tempo que não há conflito mais por conta da mesquita. Pelo contrário: ambos os lados desenvolveram o conceito da mesquita aberta. Aproximadamente 250 mil visitantes já foram recebidos na outrora polêmica mesquita Yavuz Sultan Selim.
Aprender alemão no restaurante
120 pessoas de 33 países trabalham diariamente nos sete restaurantes da rede Oktober, de Hamburgo. Elas atendem os clientes, cozinham ou servem as bebidas. Mesmo nas horas de grande movimento, não há problemas de entendimento: o idioma de trabalho é o alemão. O proprietário Ömer Merdin faz questão disso. Ele próprio veio da Turquia para a Alemanha quando tinha 19 anos e sabe o quão importante é falar alemão. Por esta razão, ele financia cursos regulares de alemão para seus funcionários, caso seus conhecimentos do idioma não sejam suficientes. “Eu quero propiciar igualdade de oportunidades para todos”, diz Merdin. Tão grande engajamento foi recompensado em 2008 com o primeiro prêmio no concurso nacional Variedade Cultural como Chance. O gastrônomo implantou até mesmo um programa próprio de qualificação profissional para sua equipe. Em seu restaurante, funcionários sem formação profissional podem capacitar-se como especialistas em serviços e cozinha para o setor hoteleiro e gastronômico.
Mães para um bairro
Roupas pretas, xale vermelho, bolsa colorida a tiracolo: Nos bairros berlinenses Neukölln, Kreuzberg e Steglitz, quase todos conhecem as mulheres com esta aparência. Na casa de alguns, elas até já se sentaram no sofá da sala. Elas são as “mães do bairro”, a maioria de famílias turcas ou árabes imigrantes, e cumprem missão especial. Elas esclarecem aos demais imigrantes questões sobre dez áreas temáticas do cotidiano, de saúde à educação. Quando há problemas, as “mães do bairro” entram em ação como consultoras. O projeto começou em 2006 no distrito de Neukölln. Hoje, cerca de 180 mulheres atuam nos três distritos berlinenses. As expectativas foram cumpridas. Afinal, estas engajadas imigrantes interagem, sem barreiras idiomáticas, com muitas famílias às quais um assistente social alemão jamais teria acesso.
Viagem global em Hamburgo
Gente de mais de 180 nações vive em Hamburgo. Isto é que é uma chance especial para as crianças conhecerem o modo de vida de famílias originárias de outros países. Os mantenedores da associação Kulturbrücke Hamburg reconheceram esta oportunidade e desenvolveram o incomum programa Switch, que promove um intercâmbio familiar internacional para crianças entre nove e 14 anos, dentro de uma mesma cidade. As meninas e os meninos, sempre em grupos de quatro, passam um dia numa família anfitriã e, juntamente com seus pais, são também anfitriões do resto do grupo. Assim, cada família atua como embaixadora de seu próprio país. Só há uma condição: as crianças participantes precisam falar alemão.
Caminho livre para o futuro
Ter um currículo acadêmico ainda costuma ser uma exceção entre os filhos de imigrantes. A Fundação Hertie assumiu como tarefa sua mudar esta situação, através do programa Start. Em 2002, alunos de famílias de imigrantes receberam pela primeira vez o auxílio de uma bolsa em seu caminho para obter o certificado Abitur de acesso ao ensino superior. O programa começou com 20 bolsas no Estado de Hessen. Atualmente, em todo o país são fomentados a cada ano 500 alunas e alunos, oriundos de 60 países. Como apoio, os bolsistas recebem ajuda de custo no valor de 100 euros mensais, um notebook com acesso à internet e a possibilidade de participar de seminários e workshops, entre outros benefícios. Além disso, eles recebem todos os anos recursos de até 700 euros, que precisam gastar em cursos de idiomas, aulas de reforço ou seminários educativos.
Parceria das culturas
Em setembro de 2006, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, e seu colega turco de então, Abdullah Gül, lançaram em Istambul a Iniciativa Ernst Reuter (ERI). O objetivo comum era, na época, fortalecer a cooperação turco-alemã e intensificar o diálogo intercultural entre ambos os países, juntamente com parceiros dos meios empresarial e de comunicação, artístico e cultural, educacional e científico. Hoje, fim de 2008, 16 projetos já trazem a logomarca de cor magenta e com seis mãos. A Iniciativa Ernst Reuter apóia aulas de alemão de imames turcos enviados para a Alemanha e a Orquestra Filarmônica Jovem Teuto-turca (foto), entre outras ações. Um marco nas relações científicas bilaterais ganha forma atualmente sob o teto da Iniciativa Ernst Reuter: a fundação da primeira universidade teuto-turca em Istambul.
www.ernst-reuter-initiative.de
Futebol pela paz
O engajamento de Volkan Inak vai até as pontas de seu cabelo. Para sua Copa da Paz, ele pediu um corte em que seu cabelo mostrasse a marca da paz. Em 11 de setembro de 2001, dia do atentado ao World Trade Center em Nova York, cristãos e muçulmanos reuniram-se espontaneamente em sua cidade Wedel para rezarem juntos. Com 12 anos naquela época, o menino ficou impressionado e decidiu também fazer algo pela convivência pacífica das pessoas: um torneio beneficente de futebol. Nascia assim a Copa da Paz de Wedel. Através da paixão pelo futebol, Volkan reúne jovens de muitos países e com diferentes religiões. Hoje, cerca de 100 meninas e meninos, de 12 a 16 anos, viajam anualmente de Hamburgo e Bremen, da Renânia do Norte-Vestfália e da Baixa Saxônia, para Wedel, para este evento esportivo integrador.
Futuro com madrinha
Menos da metade de todos os jovens imigrantes inicia na Alemanha um curso de formação profissional. Um problema que as autoridades da região de Mettmann, em 2006, não quiseram mais simplesmente aceitar. Elas desenvolveram o ProMMi, projeto de profissionalização de meninas com background de migração. O objetivo é fomentar a integração profissional de meninas de famílias de imigrantes e de religião islâmica, residentes na região. Junto com escolas fundamentais (Hauptschulen) e empresas, as autoridades locais contatam meninas do oitavo ano para auxiliá-las e acompanhá-las em sua escolha profissional. Fora do normal nesta iniciativa é a idéia de uma madrinha. Mulheres com background de migração e com formação profissional colocam-se à disposição voluntariamente para orientar e acompanhar as participantes do ProMMi. Elas são, ao mesmo tempo, exemplo e orientadoras vocacionais.
Região das culturas
Soa espetacular o que os organizadores da Capital Cultural da Europa RUHR.2010 planejam. Eles querem transformar este aglomerado de 53 cidades na região do Ruhr, no oeste alemão, o terceiro maior pólo industrial europeu, numa metrópole com novo estilo. Migração é um dos pontos centrais do programa RUHR.2010. Nenhuma surpresa, pois dos cinco milhões de habitantes da região, 600000 são imigrantes. Como se formou este caldeirão internacional? Quais problemas e desafios podem ser controlados? As respostas devem ser fornecidas pelo Festival Intercultural Melez, que mostra arte, humor e idiomas das nacionalidades na região do Ruhr (foto). O projeto mais ambicioso é uma nova rede criativa na Europa: TWINS2010. Os artistas da região do Ruhr podem junto com colegas de aproximadamente 200 cidades européias parceiras da região do Ruhr candidatarem-se com suas idéias.













