ELE CONTINUA BATENDO RECORDES. Primeiro foram quase 10 milhões de euros para o quadro “Zwei Liebespaare”. Depois foram 12 milhões para “Kerze”. No outono europeu de 2011, “Abstraktes Bild – 849-3” foi vendido por quase 15 milhões. Para Gerhard Richter, estas são notícias pavorosas. Ele, que sem dúvida é o mais importante artista alemão contemporâneo e que festeja em fevereiro seu 80º aniversário, considera grotescas e “totalmente absurdas” as somas que se pagam por sua arte. Mesmo que o sucesso seja enorme, que os colecionadores, os museus e os críticos se excedam nos elogios, Gerhard Richter permanece fiel a si próprio, mesmo em idade avançada. Ele nunca foi um desses artistas de livros de receitas, que arremessam contra a tela tudo o que lhes cai na mão. Richter é moderado e gosta do silêncio. Sua resposta a esse barulho é: modéstia.
Eu o visitei um dia em Colônia, em sua casa pintada de branco e que não tem janelas do lado da rua. É do que ele gosta, ou seja, de se esconder do mundo. Ele é um grande pintor e uma pessoa acanhada. Pisando leve, ele veio até a porta, um homem de estatura delgada, que sorri um pouquinho, pigarreia levemente e segue em frente. No seu ateliê se sentia o cheiro de tinta, mas não havia nem pinceis, nem tubos de tinta à vista. O chão cinzento, limpíssimo. Nenhuma mancha que perturbasse a ordem. Tudo em seu lugar, tudo arrumado, tudo sob controle. Estas são também qualidades do caráter desse pintor.
Sua arte nunca faz barulho, nunca gesticula, nunca acende fogos luzentes nos olhos. Antes, nós a vemos como através de óculos com lentes embaçadas. O mundo deitado em névoa suave. Richter não permite o acesso direto, nem mesmo a si próprio. Evitando tudo o que está em primeiro plano, ela já descobrira a câmera bem cedo, que se tornou para ele a espiã da realidade. Ele tira fotografias, transformando algumas delas em grandes pinturas a óleo de paisagens, flores, candelabros e cenas da sua família. Frequentemente são quadros da interioridade, pois se sente a emoção, da qual eles surgem. Mas eles proíbem o sentimental. Richter reveste suas pinturas com uma opacidade, como se ela fosse um verniz contra interpretações errôneas. Ele leva os quadros ao aproximado, mostrando e não mostrando emoção.
Essa ambivalência é fatigante, difícil. Suas obras abstratas são para ele mais fáceis de fazer. Elas também espelham seus estados de ânimo, sendo que ele não tem que ter tanto medo de que elas se exponham à banalidade. Aqui, suas emoções estão presas a borbulhas de cores, a pontos e flocos. Algumas parecem partituras com ziguezagues desordenados. Para Richter suas abstrações têm semelhança com uma música que invoca atmosferas, que ressalta contos. Elas são uma possibilidade de narrar sobre coisas, para as quais não há nenhum motivo objetivo. Ele foi chamado frequentemente de camaleão, de artista que não se apega a um método, que faz experimentos foto-realistas e que recai novamente em estrias coloridas. Mas Richter não é nenhum formalista, nenhuma pessoa que gosta de mudar de moda. Ele passa muito tempo angustiante à procura da expressão correta, suspeitando do espontâneo e do exaltado. Para ele, a arte é algo sério, algo que disserta sobre a verdade. E ele segue esta verdade minuciosamente, lutando contra si mesmo, pois outra coisa ele não pode fazer.
Nascido em Dresden, ele já sentira bem cedo a sensação do imprescindível, quando, com 16 anos, ia de lugar a lugar em um teatro itinerário, pintava os cenários do palco, fazendo às vezes notícias em aquarela. Assim ele começou a sentir gosto por aquilo, do que não se separaria mais. Primeiramente, ele foi um pintor de cartazes numa tecelagem, depois frequentou a academia em Dresden, de ensino severo, aprendendo tanto a desenhar como pensar corretamente. Isto porque a arte para os detentores do poder na RDA era, sobretudo, propaganda. O que vigorava era a doutrina do realismo socialista. Richter o seguiu, mas começou a duvidar dele, depois de ter vindo em 1959 para a documenta em Kassel, no oeste democrático, e ter visto Pollock, Fontana, a liberdade da arte. Essa liberdade se apossou dele. Em 1961, ele emigrou para Düsseldorf, começando uma vida nova. Mas primeiramente uma vida que não era a sua. Durante quase um ano, ele deu pinceladas respingando, borrifando desordenadamente, decidido a recuperar a todo custo todas as experiências que não pudera ter. Daí veio a noite da fogueira, no pátio da academia de artes, onde ele amontoou todos os seus quadros, queimando-os. A partir de então, ele passou a ser um artista que partira do nada, que tinha se libertado de tudo o que o poderia deter, cumprindo o mito da moderna autonomia. Pelo menos foi o que Richter esperava na época. Ele queria se libertar para sempre do cerco da arte política.
Todavia, sua primeira exposição intitulou-se “Manifestação pelo capitalismo realista”, revelando, já no título, que para ele não era assim tão fácil deixar para trás a própria origem. Foi uma espécie de carnaval da arte que deveria afastar os espíritos invernais da estética e sacudir a cena no oeste. Mas Richter notou logo que não era a pessoa certa para tais eventos, pois não era nem dândi, nem xamã. Ele detesta artistas que gostam de se expor a si próprios como objetos de culto. Talvez ele tenha inveja do amor próprio desses artistas, pois ele, que sempre sofreu com escrúpulos, acreditava que outros eram muito mais talentosos do que ele e ainda continua questionando sua capacidade. Mas o que mais o molesta nos autoproclamados deuses da arte é que estes fazem das suas obras órgãos de proclamação. Ele sempre evita lugares, onde supõe que haja ideologias, tentações de embriagar a massa. O que ele aprendeu nos tempos da RDA ainda o persegue. E ele também não quer se livrar daquelas experiências. Isto é a causa da cruz que ele carrega, da sua cautela em se expor. Richter não quer receitar verdades através de seus quadros. Eles sempre tentam alcançar uma fragilidade que é a sua própria.
Ele não celebra esse desequilíbrio. Ao contrário, sofre com isso, reclamando da profunda crise da arte e da vitória do banal. Nada é mais importante para ele do que sua liberdade. Mas detesta a casualidade, a perda de todas as normas. A arte tem um encargo mais elevado. Neste ponto, Richter é bem burguês, marcado pelos velhos ideais que ainda veem o museu como lugar da edificação. Richter deseja autonomia, mas também compromisso, deseja ser livre e estar obrigado. E vive essa contradição alemã como nenhum outro artista da sua geração.
O que o irrita é que as academias de arte de hoje em dia não ensinam mais desenhar e que toda pessoa pode se chamar de artista, pois ele mesmo trabalha seguindo regras claras e sabe muito bem o que é próprio de um artista da modernidade. Sendo que ele sempre está questionando essas regras e tentando reinterpretá-las, ele se irrita com artistas que não respeitam nenhuma regra e nem a história da arte.
Se ele se desvia dos tabus da modernidade, se ele pinta uma paisagem ondulada ou um borbulhante buquê de tulipas, então estes avanços sempre são estipulações de até onde ele pode chegar. Ele só pode ousar fazer isto se souber que está protegido por uma sistemática controlável. Sua liberdade também precisa de ordem e apenas partindo desta é que ele pode tentar alcançar aquilo que é inconveniente: a beleza. Pintar como Vermeer ou Velázquez é para ele uma ânsia motriz, mesmo que se não se permita cumpri-la, pois, afinal, existe a fotografia que pode mostrar tudo com muito mais exatidão e que torna supérflua a imagem pintada.
Mas, de vez em quando, a pintura consegue alcançar mais do que qualquer foto. A série de Richter sobre os terroristas da RAF que morreram na prisão de Stammheim foi feita a partir de modelos fotográficos, mas sua força de expressão só foi conseguida através das pinturas. Os adeptos da esquerda acusaram Richter de querer expropriar seus mártires. Os da direita temiam que os mortos se tornassem objeto de veneração. Os quadros se tornaram para-raios ideológicos, nos quais as tensões se descarregavam. E isto agradou a Richter. Mas ele não tinha interesse numa repetição. Ele não se compreende como um pintor do político e também não é uma pessoa que poderia receber a encomenda de um quadro sobre terrorismo ou engenharia genética. Em tempos, nos quais já se ouvem de longe os trovões de teorias da documenta 2012, Richter prefere colocar no seu ateliê oito placas opacas de vidro cinzento. Poder-se-ia dizer que ele está praticando a arte do silêncio.
Ele não se importa que o chamem de conservador. Importante para ele é a família e também a moral. E ele não esconde que é um grande amigo dos católicos. E pintou até mesmo uma vidraça bem colorida para a catedral de Colônia. Ele não gosta de cantar junto no coro dos fiéis, pois a sua vida já tinha se tornado imune contra todas as formas de adoração. Por outro lado, ele se deixa guiar pela esperança da remissão. Ele também já projetou uma cruz e continua nesse propósito, mesmo que todos o considerem biruta. É um símbolo da sua crença, de que a arte concede consolo e exaltação e de que ela venha superar, um dia, todas as discórdias. E isto para Gerhard Richter tem muito mais valor do que todos os milhões que são pagos pelos seus quadros em leilões.///
Hanno Rauterberg é redator no folhetim do semanário “Die Zeit” e autor do best-seller “Und das ist Kunst?!”.













