Devagar o Polarstern se aproxima de seu destino: um ponto no meio do oceano Atlântico, 191 milhas marítimas ao sul do arquipélago de Cabo Verde. Nenhuma costa a vista. Apenas o medidor de profundidade revela que este é o local correto. Em 4884 metros abaixo do casco do navio, o fundo do mar se transforma abruptamente num abismo. Ali, naquele bordo exterior da plataforma continental africana, Peter Wiebe quer iniciar a pesca.
Ele está nervoso. O biólogo do instituto americano Woods Hole Oceanographic Institution contorna apressado a armação pesada de metal que parece um caixilho de porta caído sobre o convés. Ele confere se os controles estão ajustados e se o saco de rede de malha fina, com 16 metros de comprimento, está bem estendido. Depois disso Wiebe faz sinal para o marinheiro que está no guindaste: Tudo pronto! A MOCNESS, uma rede especial, já pode ser lançada na água. Vinte e seis biólogos e mais de 20 homens da tripulação observam como a armadilha de 300 kg desaparece nas ondas, como os cinco sacos de rede que abrem e fecham automaticamente por controle remoto em diversos níveis de profundidade mais uma vez emergem das águas como o dorso de baleias para depois mergulhar presos ao caixilho de metal em um mundo gélido e de total escuridão, tão inacessível ao ser humano quanto o espaço sideral: o oceano profundo. É ali que MOCNESS deve procurar espécies minúsculas e ainda desconhecidas, o chamado zooplâncton. Dele fazem parte pequenos crustáceos e caracóis, poliquetas e oligoquetos, assim como medusas. Os biólogos marinhos partiram de Bremerhaven com destino à Cidade do Cabo, na África do Sul, para coletar dados para um “censo” gigantesco em um transecto de 12 mil quilômetros, com uma série de pontos previamente fixados para a análise. No Censo da Vida Marinha, cientistas de 80 países registraram quais espécies povoam os oceanos e a distribuição dos micróbios e moluscos, peixes e mamíferos nos mares.
O cerne desses grandes projetos internacionais são as expedições oceanográficas com equipes multinacionais. E nelas o navio Polarstern desempenha um papel decisivo. Há quase 30 anos, o quebra-gelo do Instituto Alfred Wegener para Pesquisa Polar e Marinha, em Bremerhaven, está a serviço da ciência, 320 dias por ano. Proprietária do navio é a Alemanha, representada pelo Ministério da Educação e Pesquisa. O Polarstern abre seu caminho pelo mar revolto e bancos de gelo, movido por cinco motores diesel com oito cilindros e 20 mil HP. Em quase todas as suas expedições, ele leva pesquisadores às regiões polares. Cada lugar a bordo é extremamente cobiçado, porque em desempenho ele é considerado o melhor navio de pesquisa polar do mundo. Um grande laboratório flutuante, equipado praticamente para qualquer tipo de pesquisa polar e marinha, nas áreas da oceanografia, pesquisa climática ou biologia.
Mais de cem pesquisadores, técnicos e membros da tripulação contam com uma cama nas cabines, espaço para pesquisa em nove laboratórios e o equipamento necessário distribuído nos oito deques da embarcação. Como no caso de Peter Wiebe, que não poderia lançar a sua rede em áreas tão profundas sem utilizar a tecnologia de ponta disponível a bordo. Ao sul de Cabo Verde, o americano acompanha na tela do computador como a sua construção monstruosa se aproxima devagar do fundo do oceano, atravessando quase 5 mil metros pela água, até ficar balançando a cem metros da zona abissal. Com um clique do mouse, Wiebe abre a bolsa da rede mais inferior e recolhe devagar o aparelho com as armadilhas. Treze horas depois, com a ajuda dos guinchos do navio, ele reaparece no mar azul. Agora tudo tem que acontecer rapidamente, porque os animais coletados, acostumados ao frio do mar profundo, podem morrer a qualquer momento a bordo. Nos laboratórios refrigerados, os cientistas distribuem as amostras da fauna em bandejas e iniciam a identificação. Durante quatro semanas a bordo do Polarstern, eles lançam suas redes. Quando o navio atraca no porto da Cidade do Cabo, termina a viagem para os biólogos marinhos do projeto Censo. Aí então começa de verdade a viagem do quebra-gelo. Outra tripulação de cientistas do mundo inteiro se prepara para o novo destino, a Antártida.
Como todo ano entre novembro e março, o Polarstern singra o Oceano Atlântico em direção ao Oceano Antártico, para transportar pesquisadores às águas da Antártida ou ao continente e abastecer os ocupantes da estação Neumayer III com alimentos, roupas quentes, trenós, ferramentas e outros equipamentos técnicos. Quando os pesquisadores a bordo alcançam a sua base de pesquisa no Oceano Ártico, próxima ao litoral, têm início as semanas de trabalho árduo no frio gélido. Os climatologistas, por exemplo, coletam metros de sedimentos do fundo do mar para obter dados sobre as mudanças climáticas entre os últimos 400 mil e quatro milhões de anos. E, quando depois de sete meses no mar e mais de 68 mil quilômetros percorridos, o navio retorna ao seu porto em Bremerhaven é só para uma breve pausa antes de partir para uma nova expedição. Desta vez o destino é o Polo Norte.
Quase todos os anos, no verão do Polo Norte, o Polarstern cruza o Ártico. E há dez anos, a equipe de Michael Klages viaja regularmente para essa região, o Estreito de Fram, a oeste da ilha de Spitzbergen, o ponto de encontro entre o Atlântico Norte e o Oceano Ártico. É nessa região que os biólogos marinhos do Instituto Alfred Wegener se sentem em casa, uma área no oceano profundo, onde buscam habitantes do mar debaixo dos blocos de gelo em profundidades de mil a 5500 metros. E assim como Peter Wiebe e sua equipe lançam sua MOCNESS à pesca, a equipe de Klages também se sente a vontade para lançar ali as suas armadilhas. O Polarstern percorre 16 diferentes pontos no mar, distribuídos numa extensão de 125 km, e os cientistas recolhem amostras da água e de sedimentos. Nas investigações a bordo eles encontram uma diversidade que ultrapassa todas as expectativas. Uma imensa quantidade de bactérias, oligoquetos e crustáceos se movem nos sedimentos. Uma aglomeração de camarões, isopodas, holotúrias e estrelas-do-mar e inúmeros peixes nadando lá embaixo em todas as direções, milhares de espécies por metro quadrado. .////














