Senhor ministro, a BBC publicou um estudo neste ano, segundo o qual a Alemanha está em primeiro lugar na reputação internacional. Sendo assim, a influência da República Federal da Alemanha sobre a política global é vista tão positivamente como a de nenhum outro país. Este resultado o surpreendeu? Como o senhor o explica?
Naturalmente, fiquei feliz com o resultado desse estudo. Creio que principalmente os dois últimos anos foram muito positivos para a nossa imagem no exterior. Através do Mundial de Futebol de 2006, nós nos apresentamos ao mundo todo como um país hospitaleiro, um país que realmente viveu o lema “O mundo entre amigos”. Isto nos trouxe muitos pontos de simpatia, como pude constatar muitas vezes em diálogos no exterior. E então, em 2007, a Alemanha ocupou a presidência da UE e do G8. Nessas funções demos impulso a muita coisa e movimentamos outras coisas. Essas presidências permitiram à Alemanha ser medialmente muito presente. Creio que também isto tenha contribuído para o resultado positivo do estudo.
Quais são as características de uma política externa moderna no século XXI?
No século XXI, nossa política externa também continua sendo uma política que se orienta nos interesses do nosso país. Esta é nossa reivindicação, e temos obviamente que observar e analisar exatamente o que acontece atualmente no mundo. No momento, estamos vivendo processos de profunda transformação: os sistemas de coordenadas estão se deslocando e novas forças estão surgindo, e, com estas, novos desafios e a necessidade de novos sistemas de ordem e regulamentação. A Guerra Fria já não existe mais. A mudança do clima, a escassez de recursos, o terrorismo internacional e uma ordem mundial multipolar são questões, com as quais devemos nos ocupar hoje em dia. Nosso objetivo tem de ser a participação ativa na configuração do mundo de hoje. Isto significa: antecipar desenvolvimentos geopolíticos e desenvolver programas de ação correspondentes. Resumindo: “moderno” significa hoje sobretudo “prospectivo”, precisamente na política externa.
Como se transformaram as prioridades da política externa alemã nos últimos anos? E, com respeito às missões militares, a Alemanha alcançou a “normalidade”?
Após a instituição da República Federal da Alemanha, a política externa alemã esteve apoiada em seus próprios pilares básicos que ainda continuam sendo atuais: inserção na Europa e integração européia, relações transatlânticas e segurança coletiva, incluindo também o engajamento mundial pela democracia, pelo Estado de direito, e pelos direitos humanos, assim como a ajuda para tais Estados e regiões, nos quais as pessoas são ameaçadas pela violência, por catástrofes naturais ou pela pobreza. Hoje, temos de fazer política sob as condições da globalização, o que significa que situações instáveis em outras regiões do mundo nos afetam diretamente. O que acontece na Geórgia ou no Afeganistão tem também importância para a segurança na Alemanha. Frente a esse fato, tivemos de aprender – e isso foi um difícil processo – que as missões no exterior são necessárias para que a segurança internacional e a nossa própria segurança sejam defendidas. Não sei se a palavra “normal” fica bem aqui. De qualquer maneira, é uma esperança óbvia que nossos parceiros depositam em nós: solidariedade na missão pela segurança e estabilidade mundiais.
Em quais setores a política externa alemã angariou méritos, considerando-se também a percepção internacional? Onde estão os grandes desafios futuros?
A política externa alemã foi por muitos anos a política externa de Willy Brandt e Egon Bahr, de Walter Scheel e Hans-Dietrich Genscher. Era uma política que, sob as difíceis condições da Guerra Fria, apostava decididamente na normalização, também frente ao vizinho ocidental. Mudança através da aproximação, foi assim que Egon Bahr formulou a tese central da política oriental. Uma política que contribuiu, como nenhuma outra, para deitar por terra os muros no nosso continente.
Outra constante da nossa política externa foi e continua sendo, com toda certeza, nosso engajamento pela unificação da Europa. A imagem do “motor alemão-francês“ continua sendo citada de vez em quando, mesmo na Europa dos 27. E se nós europeus podemos viver hoje juntos em paz e amizade, sem fronteiras que nos separem, com uma moeda comum e com a chance de desempenhar um importante papel no mundo globalizado, então isto é um mérito de todos, mas também um mérito alemão. Quem teria pensado, há 50 anos, que a Europa – naquela época em escombros e cinzas após duas guerras mundiais – poderia ser hoje um exemplo para muitas regiões do mundo?
Quais são as perguntas que temos de nos fazer hoje? Já falamos da proteção do clima, do seguro abastecimento energético, da normalização e segurança num mundo multipolar, do desarmamento e da não proliferação de armas de destruição de massa. Devemos também tratar de como poderá ser uma nova ordem internacional que considere as novas realidades, que integre seguramente os pontos essenciais da política e economia internacionais. Creio que isto é um programa de trabalho bem conveniente para nós todos…
A Alemanha engaja-se no Afeganistão no âmbito da Comunidade internacional para a reconstrução e a segurança nesse país. Que progresso há e quais são os desafios futuros?
A missão no Afeganistão é uma prova árdua para toda a Comunidade internacional: Conseguiremos dar um futuro a um país que estava quase que totalmente destruído após 30 anos de guerra, de guerra civil e hegemonia do Talibã? Eu digo: em interesse da nossa própria segurança, devemos fazer de tudo para o conseguirmos. O ponto de partida da situação é difícil, mesmo sete anos após o começo da reconstrução. Mas advirto de que não se vejam as coisas só negativamente, pois quem viaja hoje pelo Afeganistão pode ver o progresso da reconstrução: desde queda do Talibã foram construídos mais de 13000 quilômetros de novas estradas e 3500 novas escolas, foram formados 30000 professores. 80% da população já dispõem novamente de um abastecimento básico de saúde. Até agora foram realizados projetos de desenvolvimento em 32000 aldeias no Afeganistão. É claro que a situação de segurança ainda continua difícil, exigindo a nossa presença militar por tempo indefinido. Mas precisamente por isto é importante que nos esforcemos ainda mais na reconstrução. E, evidentemente, temos sempre de nos perguntar se estamos no caminho certo. Também por essa razão tivemos em junho a Conferência do Afeganistão em Paris. O que conseguimos? Qual é o caminho a trilhar? Onde devemos fazer mais ainda? Mas, ao lado da avaliação crítica, houve sobretudo duas coisas importantes: a Comunidade de Estados internacional assegurou a continuação do seu apoio. E os afegãos também prometeram assumir paulatinamente mais responsabilidade. Nosso objetivo é colocar os afegãos o mais breve possível em condição de cuidar, eles próprios, da segurança no seu país. Por isso, nós também reforçaremos nossos esforços na formação da polícia e do exército.
A política externa alemã vem acompanhando os esforços de paz entre israelenses e palestinos já há anos. Qual é a contribuição da Alemanha neste particular?
Penso que não devemos sobreestimar nossas possibilidades nessa questão. Mas também não as deveríamos subestimar. Há realmente raios de ação para nós e para uma ação européia para terminar esse conflito. Sendo assim, nós apostamos – e isso o senhor sabe – numa ampla solução política no Oriente Médio. Nosso objetivo é um fim duradouro da violência e um convívio pacífico entre israelenses e palestinos, com base em um uma solução de dois Estados. Durante a presidência alemã da UE em 2007, nós nos esforçamos muito pela reanimação do Quarteto do Oriente Médio e pela inclusão dos Estados da região nos esforços internacionais. Finalmente foi possível recomeçar os diálogos, resultando daí a Conferência de Annapolis.
Vejo o desempenho de um papel alemão e europeu em flanquear de maneira apropriada o processo político começado em Annapolis. Este é o objetivo central de nossa “estratégia de ação comum da UE”. Trata-se de mostrar às pessoas dessa região que vale a pena tentar o caminho para a paz, não importa quão difícil ele seja. Isto apóia os chefes das negociações de ambos os lados, fortalecendo as forças moderadas. Isto significa: reconstrução econômica, mas também significa apoiar a polícia e a justiça nas regiões palestinas. Ainda falta muita coisa: prédios para a justiça, viaturas para a polícia e oficinas para consertá-las. Aqui podemos fazer algo bem prático.
Com nossa iniciativa “Futuro para a Palestina”, promovemos projetos concretos e de rápida realização nas regiões palestinas, os quais já deverão trazer melhoras sensíveis das condições de vida. Através da grande Conferência de Segurança da Palestina, em Berlim, nós e a Europa demos um claro sinal de que este continente quer desempenhar um papel de liderança na construção da polícia e da justiça palestinas.
Implícitas na prevenção de crises estão também a luta contra a fome e a promoção do desenvolvimento econômico como fator de estabilização. Em sua opinião, quais projetos da cooperação desenvolvimentista alemã poderão ter futuro promissor, também com vista ao alcance dos objetivos do milênio das Nações Unidas?
Willy Brandt já formulara acertadamente em 1980: “Onde domina a fome, a paz não pode prevalecer”. Se quisermos evitar crises, teremos de nos ocupar com as causas estruturais dos conflitos, incluindo também a luta contra a fome e a pobreza e a promoção do desenvolvimento econômico. A falta de perspectivas e a distribuição desigual do bem estar aumentam o risco de que os conflitos desandem em violência. Por outro lado, crises ou conflitos graves roubam as bases de vida das pessoas, fazendo com que a fome e a miséria se tornem ainda maiores. Por isso, impedir conflitos violentos no mundo todo continua sendo uma questão central da política externa alemã.
A prevenção sustentável de crise só poderá ter êxito – e disto estou convencido – se optarmos por uma ampla solução. Uma solução que englobe todos os setores políticos: ao lado da política externa e de segurança, também a política de economia e desenvolvimento e a política ambiental. A segurança e o desenvolvimento estão estreitamente unidos entre si. Sem uma, o outro não é possível. Por isso, o governo federal engaja-se na promoção do desenvolvimento econômico, como um meio para evitar crises e assegurar mais a paz. Além disso, trata-se também de configurar a globalização, de maneira que o desequilíbrio já existente não se torne ainda maior. Isto também é uma condição importante para o desenvolvimento econômico e social.
Na Cúpula do Milênio das Nações Unidas, no outono de 2000, a Alemanha e os Estados do mundo reconheceram o objetivo de reduzir pela metade, até 2015, a percentagem de pessoas que vivem em extrema pobreza no mundo inteiro. O senhor sabe que, a nível nacional, aprovamos o “Programa de Ação 2015”, em cuja realização continuamos trabalhando com afinco.
O estudo “Bertelsmann Transformation Index 2008” comprova que o número das democracias cresceu nos últimos anos, mas que cada vez mais desses países estão se desenvolvendo em “autocracias secretas”. Como a política externa alemã age com respeito a essa tendência?
O primeiro passo na formulação da política externa é observar e analisar exatamente os desenvolvimentos políticos no mundo todo e, com base nisso, desenvolver projetos e estratégias políticos. Uma das mais essenciais tarefas das representações exteriores é relatar regularmente sobre a situação dos direitos humanos e das condições jurídicas básicas no país correspondente. Posso lhe assegurar que observamos isso muito bem. Falamos com o governo e com as autoridades e também com representantes da sociedade civil – jornalistas, advogados, ativistas dos direitos humanos ou fundações políticas. Se houver tendências de que os princípios do Estado de direito e da democracia estejam em perigo, então tocaremos no assunto e tentaremos conseguir ajuda. Fazemos isto bilateralmente ou dentro do quadro da UE e das Nações Unidas, mas, em todo caso, em sintonia com nossos parceiros europeus e internacionais. O senhor sabe que para tanto desenvolvemos um instrumentário múltiplo.
Cito os diálogos sobre os direitos humanos e sobre o Estado de direito, que começamos a travar bilateralmente ou a nível europeu com países como a China, a Rússia e muitos outros. Também quero lembrar a iniciativa do Estado de direito, a qual fizemos quando ocupávamos a presidência do G8. Quem quiser assegurar os direitos humanos sustentavelmente terá também de se ocupar com as circunstâncias sociais, nas quais eles devem perseverar. Para tanto, é necessário que os déficits sejam claramente declarados. Mas também são necessárias paciência e persistência para superá-los. Estamos trabalhando nisso com muito engajamento e continuaremos trabalhando assim no futuro.
A missão pela democracia e os direitos humanos é óbvia para a Alemanha. Mas outros países consideram a convocação a respeitar os padrões e os valores ocidentais uma intromissão ou uma lição. Quais possibilidades concretas a diplomacia tem neste particular?
Em primeiro lugar: os direitos humanos, como foram por exemplo assentados há 60 anos na “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, são universais e indivisíveis. Não são valores “ocidentais”. Por isso os defendemos tão decididamente. E também por isso sou da opinião de que os princípios internacionais de não intromissão chegam claramente a seus limites no caso de evidentes violações dos direitos humanos. É também tarefa da diplomacia chamar sempre a atenção para este fato e tornar claro que visões religiosas ou culturais não podem servir de argumento para pôr em questão padrões universais. Já citei o instrumento dos diálogos sobre os direitos humanos: nós os usamos para tratar de tais questões fundamentais. E já que o senhor perguntou pelo papel da diplomacia: ela também é empregada lá, onde se trata da solução de casos concretos, nos quais os direitos humanos foram violados. É evidente que sempre temos também de defender claramente nossa posição publicamente. Se quisermos ajudar as pessoas concretamente, não poderemos prescindir dos meios da “diplomacia calma”, ou seja, agir insistentemente atrás dos palcos, para possibilitar soluções.
“A arte e a cultura estão se tornando cada vez mais importantes na política externa, pois elas alcançam pessoas lá onde os meios diplomáticos não surtem efeito”, disse o senhor recentemente em uma entrevista. Onde o senhor vê o efeito específico da cultura na política externa?
Já disse: vivemos em um mundo que vem se transformando drasticamente diante dos nossos olhos. Estão surgindo novas forças, novos atores que promovem suas idéias e seus valores. Isto significa: já não podemos mais pressupor em toda parte, como normal, os nossos próprios valores que pareciam ser durante anos a medida de todas as coisas. Ao contrário, nós também temos de promover, de convencer, de nos fazer compreender. Por outro lado, o que vale é que apenas poderemos compreender muitos processos e desenvolvimentos se considerarmos seus contextos culturais. Por isso, digo: temos de criar possibilidades, nas quais a compreensão mútua possa surgir, nas quais possa aumentar a tolerância de que necessitamos no mundo interconectado de hoje. Com os meios da diplomacia clássica, só poderemos alcançar isto em parte. A arte, a cultura e a educação são pontes, sobre as quais as pessoas podem ir ao encontro umas das outras. Por isso, a política cultural externa é, com razão, o terceiro pilar da nossa política externa. Seja em nossas escolas exteriores ou parceiras, seja nos nossos 134 Institutos Goethe no exterior, seja no quadro da nossa política externa científica, que queremos promover neste ano com muito ênfase – o intercâmbio cultural e o trabalho educacional representam um fundamento que também suporta nossas relações políticas.
A Alemanha é o terceiro maior contribuinte das Nações Unidas e a sede de inúmeros secretariados e instituições da ONU. Como a Alemanha vem perseguindo o objetivo de uma reforma do Conselho de Segurança da ONU, inclusive a sua ampliação?
Mesmo que este tema não esteja mais nas manchetes como há alguns anos: sem uma reforma do Conselho de Segurança, a reforma das Nações Unidas permanece uma obra parcial. Do ponto de vista da sua constituição, o Conselho de Segurança condiz com o mundo depois de 1945. Hoje, estamos lidando com realidades geopolíticas completamente diferentes. E se a autoridade e credibilidade do Conselho tiverem de ser conservadas, então deverá haver uma reforma. O senhor sabe que em 2005 a Alemanha, juntamente com o Brasil, a Índia e o Japão, apresentou propostas correspondentes. Mesmo que naquela época tenha havido um amplo apoio, essas propostas não foram postas em votação, como também foi o caso de outros projetos de resolução. Hoje, travamos um debate sobre as chamadas “soluções provisórias”, o que significa: uma reforma que deve ser válida apenas por um tempo limitado, havendo, no fim desse prazo, uma conferência obrigatória de avaliação. Temos, diante desta idéia, uma posição aberta e flexível, participando ativamente nas discussões correntes. O objetivo é começar um processo de negociações o mais cedo possível, que possa confluir em uma reforma concreta, sendo que há dois pontos centrais: primeiramente, queremos uma verdadeira reforma estrutural do Conselho de Segurança, que corresponda ao mundo de hoje. Em segundo lugar, a proposta tem de ser formulada de tal maneira que tenha o potencial para obter a necessária maioria de dois terços na Assembléia Geral.
Senhor ministro, muito obrigado pela entrevista.
Dr. Frank-Walter Steinmeier
é desde 2005 ministro federal das Relações Exteriores e desde 2007 também vice-chanceler da República Federal da Alemanha no gabinete da chanceler Angela Merkel. Nascido em 1956, este social-democrata estudou Direito e Ciências Políticas na Universität Giessen e foi chefe da chancelaria federal de 1999 a 2005.














