Domingo, 27/05/2012 06:26
 
 

Atualidade

Viagem pela música e a cultura da África

Confira a alegria de viver dos africanos: astros da música de Cabo Verde e do Senegal estarão este ano em destaque nos...mais

© Thomas Dorn

Atualidade

Economia

Presidente do banco do Vaticano é afastado do cargo  

Cultura e Estilo

Exposição mostra a moda europeia do Iluminismo à Primeira Guerra Mundial  

Cultura e Estilo

Dresden comemora 500 anos da pintura "Madona Sistina"  

Perfil

Vizinhança ecológica

Adriana López, da Colômbia, desenvolve em Bonn, na Universidade das Nações Unidas, modelos para melhorar ecologicamente...mais

Eventos

Vida em quadrinhos

Uma viagem de descobrimento ao mundo dos super-heróis. O museu Europäische Kulturen...mais

Link

Alemanja

PORTAL ALEMÃO PARA A LUSOFONIAmais

Bookmarks
| |

“Encarar de frente o próprio passado”

No ano 2000, o Parlamento federal escolheu Marianne Birthler para encarregada federal dos Arquivos do Serviço de Segurança do Estado da antiga RDA. Até hoje, a berlinense engaja-se na reorganização dos arquivos do Stasi

Sra. Birthler, certa vez a senhora disse a frase: “Eu cresci na RDA, mas nunca fui uma filha da RDA”. Como a senhora e sua família viviam na Alemanha Oriental?

Eu venho de uma família de Berlim Oriental que, tanto quanto eu posso me recordar, mantinha uma distância crítica em relação à RDA. Assim cresci com uma postura crítica à Alemanha Oriental.

Seus pais manifestaram-se publicamente contra o regime?

Não. Minha mãe não contradizia publicamente a política dominante. Mas, em casa, ela plantou em nós algo como o amor pela liberdade. Nós captávamos as emissoras de rádio e televisão do Ocidente. Nós assistíamos às transmissões dos debates no Bundestag (o Parlamento federal). Nossa mãe jamais deixou dúvida de que considerava a Alemanha Federal uma democracia, na qual as pessoas viviam com liberdade. A RDA, ao contrário, era sem dúvida, a seu ver, uma ditadura.

A recepção dos meios de comunicação ocidentais não trazia perigo para sua família? Vocês não temiam represálias, caso isto fosse descoberto?

Não era tão ruim assim. Naturalmente que não se falava sobre isso em público, nem na escola. Entretanto, a maior parte das pessoas sabia uma das outras quem assistia à televisão ocidental. E, em alguns círculos privados, discutia-se sobre as notícias e também sobre que filme policial havia passado na tevê. Porém, é preciso deixar claro: estou falando dos últimos tempos da Alemanha Oriental. As relações no país já eram completamente outras.

A senhora engajou-se abertamente em grupos de oposição e, com isso, arriscou tornar-se uma perseguida política. A senhora imaginou naquela época que seria de fato possível superar politicamente a Alemanha Oriental?

Nos grupos de oposição éramos unânimes sobre contra o que nos colocávamos. A gente se engajava contra as relações existentes na RDA. Queríamos mais autonomia. Não queríamos mais ser tutelados. Porém, não tínhamos propostas ou visões futuristas concretas. Para nós, o conflito era, antes de mais nada, com os males concretos do Estado. Mas não tínhamos uma imagem clara do que viria em seguida.

O que a senhora sentiu quando, em 9 de novembro de 1989, ouviu falar da Queda do Muro?

Naturalmente, fiquei felicíssima de que a fronteira para Berlim Ocidental estivesse aberta. Mas a Queda do Muro foi apenas um dia em toda uma série de acontecimentos. Ela foi precedida por algo que tornou possível este episódio histórico: a revolução pacífica. Ela foi decisiva para o desenvolvimento na RDA – sem ela, o Muro não teria caído. Nós estávamos infinitamente aliviados por a RDA ter encontrado seu fim desta forma pacífica e sem derramamento de sangue.

Desde o ano 2000, a senhora é a encarregada federal dos Arquivos do Ministério de Segurança do Estado da antiga RDA. Por que a senhora, quase duas décadas após a reunificação, ainda se engaja na reorganização do passado da Alemanha Oriental?

Sobretudo porque eu considero importante que as pessoas sejam esclarecidas sobre seu próprio passado. Temos de saber como funcionam as ditaduras e como as pessoas se comportam sob as condições de uma ditadura. Isto contribui para valorizar a liberdade e a democracia e não considerá-las como algo natural. É importante, quando se trata de moldar a democracia.

Alguns acreditam que, para um ­crescimento conjunto do Leste e do Oeste, seria melhor colocar um ponto final neste tema...

Não. Isto seria uma ilusão. Como seria isso? Então teríamos de proibir também entrevistas como esta ou retirar a RDA do conteúdo das aulas nas escolas. Numa democracia é absolutamente impossível por um ponto final, felizmente.

O tratamento dado aos arquivos do Stasi seria um modelo para outros países que também passam a limpo suas ditaduras?

Sou a princípio cautelosa com a expressão “modelo”, pois soa sempre muito pretensiosa. Mas desta minha experiência eu sei, naturalmente, que muitos países, que igualmente precisam superar ditaduras, observam atentamente o que estamos fazendo, simplesmente porque a Alemanha é o primeiro país que tomou este caminho. Outros países encontraram seus próprios caminhos. Mas o trabalho na Alemanha deu um impulso para eles encararem de frente seu próprio passado.

Marianne Birthler

A ex-militante dos direitos civis na Alemanha Oriental, nascida em 1948, é desde 2000 encarregada federal para os Arquivos do Ministério de Segurança do Estado da antiga RDA. O órgão cuida, em seus arquivos, dos documentos da polícia secreta da Alemanha comunista e, de acordo com rígidas prescrições legais, coloca-os à disposição de particulares, de instituições e da opinião pública.

18.03.2009
Bookmarks
| |