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Dieter Kosslick, chefe da Berlinale:

“Cinema tem uma magia indestrutível”

Dieter Kosslick dirige a Berlinale, o maior festival alemão do cinema, desde 2001. Nesta entrevista, ele fala sobre a arte da escolha de filmes e a importância dos astros no tapete vermelho

Sr. Kosslick, com a estréia mundial do filme “Shine a Light” de Scorsese, em 2008, o senhor logrou uma verdadeira sensação na abertura da Berlinale, com a banda Rolling Stones. Podemos esperar algo semelhante em 2009?

Bem, isto não é fácil de se repetir, mas vamos tentar. Em 2008, tivemos uma abertura da Berlinale ­realmente ligada ao rock. Um dos temas centrais no festival – em todos os ciclos – foi a música: filmes de músicos ou sobre eles, música como expressão da transformação sociopolítica. Ao lado dos Stones, também estiveram presentes Patti Smith, Neil Young e Madonna. Para 2009, a seleção dos filmes só estará concluída em meados de janeiro. Mas, para mim, um filme já tem desde já um significado especial: com imagens dramáticas, “Food Inc.” mostra processos escandalosos na produção mundial de gêneros alimentícios. Já há dois anos, a Berlinale ocupa-se, na ­série “Cinema Culinário”, com questões ecológicas e de saúde, em torno aos temas nutrição e ­alimentos.

A classe de um grande festival do cinema é medida pelos astros que pisam seu tapete vermelho?

Um festival como a Berlinale também apresenta, é claro, grandes ­astros internacionais. Mas não nos esquecemos, à parte disto, da arte cinematográfica. O verdadeiro segredo de um festival do cinema de nível internacional é apresentar uma programação ampla, mas também com perfil próprio. O star power faz parte, mas não é tudo.

Cinco mil filmes têm de ser examinados para a Berlinale. O que é mais difícil na seleção?

Em cada um dos ciclos de programação da Berlinale, temos diversos comitês para examinar esta quantidade incrível de filmes. Então, os chefes de cada ciclo examinam esta pré-seleção do seu setor. Eu faço isto para a Competição, ou seja, no final assisto a cerca de 200 filmes. O desafio da programação está, na verdade, na composição correta. A programação de um concurso internacional precisa ter uma dramaturgia. Inicialmente, fatores formais, estéticos, culturais e de conteúdo desempenham um papel, mas também a consideração de um público heterogêneo de jornalistas, representantes do setor do cinema e dos assim chamados espectadores ­normais. É um processo bem complicado.

Que papel desempenha, durante a Berlinale, o encontro do setor no European Film Market?

O European Film Market é um instrumento vital para a economia internacional do cinema. A oferta no EFM é de cerca de 700 filmes, dos quais 75% são lançamento no mercado, ou seja, são apresentados aos compradores potenciais pela primeira vez em Berlim. Isto torna o EFM tão atraente, nele são negociados os filmes aos quais o nosso público de cinema poderá assistir nos próximos um ou dois anos. O EFM tem uma história incrível de êxito. Desde a mudança para o novo e maravilhoso prédio do Martin-Gropius-Bau, em 2006, o mercado cresceu enormemente. Com toda modéstia, pode-se dizer que, nos últimos três anos, nos tornamos o terceiro maior mercado mundial de filmes. A tendência é de crescimento ainda mais rápido.

A criação do Talent Campus da Berlinale foi sua idéia: o que o ­senhor esperava dele?

A presença na cidade de 350 jovens artistas do cinema de 120 países propicia uma enorme energia ao festival. Na sua história de quase seis anos, o Campus não apenas correspondeu, mas sim ultrapassou em muito as nossas expectativas. Como a plataforma da Berlinale para os novatos, ele tem uma repercussão positiva mundial e tornou-se, internacionalmente, um modelo para o fomento da nova geração do cinema. A idéia do Campus já foi copiada por outros festivais ou foi organizada junto conosco, por exemplo, na África do Sul, Índia e Argentina. Lá, são organizados anualmente Talent Campi, com o apoio de Berlim. O Festival do Cinema de Sarajevo também organiza, desde 2007, um Talent Campus com foco nos jovens talentos do Sudeste ­europeu. E também o Festival do ­Cinema de Jerusalém está interessado no Talent Campus. É uma ­grande satisfação para nós que o Campus seja apoiado pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo ministro do Exterior, Frank-Walter Steinmeier.

Se o senhor fizesse um diagnóstico curto do cinema alemão ­atual, o que diria?

Eu creio nos nossos cineastas e na qualidade dos filmes alemães. A situação do cinema alemão estabilizou-se num nível elevado. Há um grande potencial de jovens cineastas, que trabalham nos gêneros mais diversos. Isto é reconhecido há muitos anos, também internacionalmente. Até mesmo Hollywood teve a atenção despertada para estes talentos e faz ofertas de engajamento. Não apenas na Berlinale, também em outros festivais, os filmes alemães juntam cada vez mais troféus. Também o público voltou-se outra vez para os filmes alemães e a Alemanha tornou-se um importante centro de produções.

Muitos dos filmes alemães mais novos de sucesso abordam temas da história recente. Esta é uma tendência geral ou algo ­específico do cinema alemão?

O interesse por temas e acontecimentos atuais, que determinam a nossa vida social, aumentou fortemente nos últimos anos. Muitos ­cineastas ocupam-se de temas do seu ambiente social. Isto explica também o grande sucesso dos documentários. Eu acredito que os ­diretores e diretoras alemães ajudaram a criar esta tendência, que agora é constatada mundialmente.

O senhor ainda vai ao cinema nas suas horas de lazer?

Naturalmente. O cinema tem uma magia indestrutível, mesmo que hoje pareçam infinitas as possibilidades digitais de recepção audiovisual. Nada pode substituir a experiência conjunta, a sala de cinema e a sensação agradável, quando as luzes se apagam e a cortina se abre.

Entrevista: Janet Schayan

17.11.2008
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